147 ethic@ - Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, v. 16, n. 1, p. 147 – 164. Jul. 2017 VENTURA, R. W. Resenha de Políticas migratórias, justicia y ciudadanía VELASCO, Juan Carlos. El azar de las fronteras: Políticas migratórias, justicia y ciudadanía. México: Fondo de Cultura, 2016. p. 372. ISBN: 9786071637130 RESENHA RAISSA WIHBY VENTURA 1 (Universidade de São Paulo) “Não existe trabalho (...) A única coisa que uma mulher pode fazer é se casar, ter filhos e cozinhar para toda a sua família”, explica Olga Flores em um tom que parece expressar uma tentativa de justificar o que a levou a migrar ilegalmente para os Estados Unidos. Em janeiro de 1998, aos vinte e um anos, Flores, nascida em uma pequena cidade do estado de Hidalgo, México, começou a planejar o seu trajeto de imigração: pegaria um avião até Sonoyta - cidade localizada na fronteira com o Arizona - onde encontraria com o coyote, quem tornaria a travessia possível. Foi o que aconteceu. Flores lembra-se de alguns detalhes da viagem: “Éramos cerca de doze pessoas (...) em um pequeno caminhão, sem os acentos. Eles nos disseram para ficarmos abaixados, cabeça nos pés e pés na cabeça, para ter espaço para todo mundo (...). Estava frio, eu não tinha uma jaqueta (...). Nós dormimos no carro e comemos no McDonald´s. Foi o primeiro burger que comi. (...)”. O trajeto lhe custou mil dólares (TOOBIN, J., 2015, s/p). Sabemos que Olga Flores, caso permanecesse em sua cidade natal, como ela bem descreve, teria que perseguir um plano de vida que não escolheu. Do mesmo modo, é difícil negar que o local de nascimento é um fato arbitrário que tem consequências relevantes para a vida de cada um de nós. Diante dessas percepções, que até parecem triviais, podemos nos perguntar: É justo que o nascimento seja tão definidor dos nossos projetos e das nossas expectativas de vida? Podemos afirmar que Olga é vítima de algum tipo de injustiça por ter nascido no México e não nos Estados Unidos ou em qualquer outro país em que poderia perseguir uma vida que considera digna de ser vivida? E se sim, de qual tipo? http://dx.doi.org/10.5007/1677-2954.2017v16n1p147