“É pecado matar a esperança, mas todo mundo quer matar o sariguê”. Etnoconservação e catolicismo popular no Brasil 1 José Geraldo W. Marques 2 “- Sr. Corregedor, Vossa Excelência já deve ter notado que o Catolicismo Sertanejo tem suas leis e seus mandamentos próprios!” Ariano Suassuna in “O Romance d’A Pedra do Reino” “Passarinho não se pode matar, porque pode provocar a ira de Deus.” Uma sertaneja baiana A eficácia de uma ética tradicional e de ensinamentos religiosos na conservação tem sido abundantemente documentada (Anderson, 1996). Segundo este autor, sociedades tradicionais usam a religião para sancionar suas estratégias de manejo de recursos e isto aparentemente é uma estratégia bem-sucedida. Será que isto também aconteceria no catolicismo popular brasileiro (CPB), “uma tradição judaico-cristã à moda da casa”? Comecemos com um dos seus pecados, “o de matar a esperança”. As esperanças (Orthoptera, Tettigoniidae) são insetos que ocupam um espaço privilegiado na mente popularmente catolicizada de brasileiros, fato especialmente documentado para os estados de Alagoas e Bahia. Neste estado, obtivemos o relato seguinte: “Meu avô contou a seguinte estória: diz que a esperança foi assim: pois quando ela tava numa árvore olhando Nossa Senhora, quando ela deu a dor pra ter menino, ela tava doida pra vim visitar, mas com medo do galo comer ela. Ela ficou de lá de cima, com o olho cumprido, pulando lá de cima de alegria.”. No sertão alagoano, a esperança é tida como alvissareira, mas isto depende da sua coloração: verde, traz boa sorte e então alegra-se com a sua presença; com “a boca preta”, traz azar e sentimentos negativos são gerados por sua presença. Na Bahia, embora haja quem afirme que “nenhuma esperança é ruim”, há também uma diferenciação sentimental quanto à coloração, que de um modo geral assemelha-se ao que ocorre em Alagoas. De um modo geral, porém, refere-se à esperança (implicitamente sem coloração preta), em ambos os estados, como sendo “abençoada” (“a esperança é abençoada: se ela tava rezando pra Nossa Senhora ter São Deus Menino, pra ela ter ele em paz!...”, disse-se na Bahia). A preservação da sua vida é sempre enfatizada e explicita-se um tabu do tipo “não matarás” muito forte: “ela é um bichinho que ninguém mata, pois quem mata, perde a esperança” (em outra expressão encontrada na Bahia). Ela integra-se, etnobiblicamente, a um vasto elenco de animais cobertos pela maior abrangência que a mente catolicizada popular dá ao bíblico mandamento do “não matarás” (Tab.1). Em termos do Testamento popularizado, o ato consiste em um “grande pecado”. Com isto, é possível hipotetisar que todo um conjunto de espécies de tetigonídeos possa estar sendo biologicamente conservado através de mecanismos culturais, ou seja, etnobiologicamente conservado, ou etnoconservado. 1 In: ALVES, A.G.C.; LUCENA, R.F.P. & ALBUQUERQUE, U.P. Atualidades em Etnobiologia e Etnoecologia. Volume 2. Recife, SBEE/NUPEEA, 2005, p. 25-43. 2 Prof. Titular de Etnobiologia da UEFS / Prof. Credenciado de Etnoecologia da UNICAMP