ARJ | Brasil | V. 4, n. 1 | p. 57-75 | jan. / jun. 2017 KÜHL | Visões cinematográicas da ópera nos trópicos Visões cinematográicas da ópera nos trópicos¹ Paulo M. Kühl Universidade Estadual de Campinas, Brasil pmkuhl@gmail.com O objetivo é discutir duas visões especíicas sobre ópera nos trópicos, aqui enten- didos como um lugar distante, relativamente misterioso e, no mais das vezes, pro- blemático. Trata-se certamente de uma construção de fora, realizada em centros que olham para os trópicos como periferia. O cinema, ao construir uma poderosa combinação de imagens, sons e sensações, serve aqui como uma das mais signi- icativas possibilidades para abordar o tema, uma vez que ajuda a cristalizar e a divulgar determinadas concepções, quase que naturalizando-as e conferindo-lhes um caráter de verdade permanente. Para tratar de alguns aspectos do problema, proponho o exame de dois ilmes muito distintos, que, de algum modo, apresen- tam vários dos paradigmas mais usuais quando se pensa em ópera “nos trópicos”. São eles: Orphée Noir (Marcel Camus, 1959) e Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982). Os dois ilmes têm propostas muito distintas, sendo o mais recente uma narrativa em que a ópera está presente como o motor da ação e como um dos elementos essenciais da trama; o mais antigo, uma espécie de transposição de uma possível “ópera tropicalizada” para o cinema. Contudo, apesar das diferenças, podemos reconhecer em ambos uma ênfase na oposição entre natureza e civilização, entre campo e cidade, entre elementos locais e estrangeiros (nos temas, na música, nos grupos étnicos, entre outros). Certamente, o cinema traz uma combinação de sons e imagens e de ação e narrativa que são muito diferentes de uma ópera encenada.² Levando em conta tais elementos, é possível examinar como o cinema constrói, através desses dois exemplos, duas visões muito particulares sobre as possibilidades de migração da ópera da Europa para outros cantos do mundo. ¹ Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada na 1st Transnational Opera Studies Conferen- ce, Universidade de Bolonha, 29 de junho a 02 de julho de 2015; a viagem contou com inanciamento da FAPESP (Proc. n. 2015/08134-1). ² Os estudos sobre ópera e cinema têm crescido nos últimos tempos, mas neste trabalho a aborda- gem é diferente daquela utilizada por autores como Citron (2000 e 2010), Grover-Friedlander (2005) e os ensaios editados por Joe e R. Theresa (2002).