RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 72 - Nº 11 - NOVEMBRO DE 2015 480 © Copyright Moreira Jr. Editora. Todos os direitos reservados. Águas de hemodiálise: controle de qualidade em saúde Hemodialysis water: quality control in health Unitermos: unidades hospitalares de hemodiálise, diálise renal, contaminação Uniterms: hemodialysis centers, kidney dialysis, contamination resumo Apesar de estabilizar o equilíbrio hidroeletrolítico, pacientes com insuiciência renal crônica (IRC) submetidos à hemodiálise apresentam risco aumentado de desenvolver doenças cardiovasculares, cuja susceptibilidade pode não ser amenizada pela terapia eletrolítica, além de não substituir funções endócrinas em estado isiológico. A explicação para complicações cardiovasculares e outras comorbidades relacionadas à hemodiálise talvez seja a presença de contaminantes microbianos e tóxicos nas águas utilizadas para o processo. Esta revisão utilizou-se de bases de dados indexadas e bibliotecas universitárias para a busca bibliográica. A busca foi limitada aos artigos publicados até Março de 2014. Estudos atuais demonstram que o controle de qualidade em águas de hemodiálise é um processo negligenciado e torna imperativo que o proissional da saúde e pesquisadores trabalhem em conjunto para tornar mais eiciente a puriica- ção, fornecimento e armazenamento de águas para o processo, reduzindo índices de mortalidade apresentados pelos pacientes. INTroDução Atualmente, a Resolução nº154 (de 15/06/2004) estabelece a regulamenta- ção técnica para o funcionamento dos serviços de diálise no Brasil. De acordo com essa Resolução, a água potável para abastecimento deve ser: incolor, ausente de turvação, insípida, inodora, possuir pelo menos 0,5 mg/L de Cloro residual livre e pH entre 6,0 e 6,5. A água de diálise deve também ser analisada mensalmente para coliformes totais (ausência em 100mL) e bactérias heterotróicas (200 Unidades Formadoras de Colônia/mL ou UFC/mL), além de endotoxinas (2 EU/ mL), nitrato e minerais 1 . Entre os anos de 2009 e 2011, a Associação Americana de Instrumentação Médica (AAMI) participou do desenvolvimento de novos padrões internacionais para a pureza da água utilizada em hemodiálise, ressaltando principalmente aspectos acerca do con- trole da água e equipamentos, além da estruturação de um guia para que tais padrões sejam alcançados 2 . Pacientes de hemodiálise são exp- ostos a volumes signiicativos de água tratada (400mL), separada do sangue apenas por uma membrana semi- permeável, permitindo que ocasional- mente a água mova por iltragem inversa entre os meios 3 . Mesmo que a maioria dos sistemas de puri icação de água se baseiem em osmose reversa (OR), que remove quase completamente os contaminantes químicos, os riscos de acidentes não devem ser subestimados, e foram reportados nos últimos anos 4 . Os contaminantes microbiológicos nas águas de hemodiálise são bactérias e seus produtos de degradação, impli- cando em riscos ao paciente, mesmo que o número de efeitos adversos seja pequeno na maioria dos estudos (cerca de 8%), as implicações e a atenção à qualidade da água é geralmente neg- ligenciada, requerendo vigilância con- stante dos serviços de diálise 5 . No Brasil, casos de infecções e contaminações decorridas da utilização de águas de hemodiálise são frequent- emente reportados 4 . Autores também tem demonstrado a ocorrência de diversos microrganismos nessas águas; dentre estes, encontram-se: Pseudomonas ae- ruginosa, Trichoderma sp., Cladosporium sp., Aspergillus sp., Fusarium sp., Bacillus subtilis, Bacillus cereus, Staphylococcus epidermidis, Alcaligens xylosoxidans, Burkholderiacepacia e outros 5-7 . A con- taminação microbiana de fluidos de diálise pode levar a complicações clíni- cas, como instabilidade cardiovascular, náuseas e dores de cabeça, além de es- tado inlamatório crônico, fator extenuante para aterosclerose, desnutrição e outras ocorrências desfavoráveis ao prognóstico previamente complexo de pacientes sub- metidos à hemodiálise 8-9 . A vigilância e análise de águas utilizadas em serviços de diálise é es- sencial para preservar a segurança e a qualidade do processo 10 , além da limpeza e desinfecção preventiva de todas as partes do sistema de armazenamento e distribuição 11 , que evita contaminações e infecção nos pacientes, cujo estado de saúde deve ser preservado inamente. Joana Angélica Barbosa Ferreira Hilda do Nascimento Nóbrega Mestre em Vigilância Sanitária, Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Hércules Rezende Freitas Daniela Cordeiro Moura Nutrição, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Victor Augustus Marin Pós-Doutor em Biotecnologia Vegetal, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Claudia Gladys Flores Sejas Biomedicina, Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. comunicação Local do estudo: Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Av. Brasil, 4365 - Manguinhos, Rio de Janeiro - RJ - Brasil - CEP: 21.040-900 - Tel.: (0xx21) 3865-5151 FAX: 2290-0915. Recebido em outubro 2014. Aceito em março 2015.