24 HISTÓRIA DA QUÍMICA Neste número, a seção “História da Química” dá destaque à destilação, uma técnica muito antiga e ainda hoje importante nas indústrias e laboratórios químicos. A destilação também é um tópico muito presente nos programas de cursos de nível médio, embora seja raro professoras e professores discutirem a história desse processo químico. Neste artigo são apresentadas algumas idéias atuais sobre as origens e o desenvolvimento do processo de destilação. São enfocadas algumas concepções acerca desse processo elaboradas em diferentes épocas até o século XVI, bem como aspectos relativos a sua utilização, especialmente na obtenção de medicamentos. destilação: prováveis origens, concepções até o século XVI, utilização do processo A lambiques, retortas e fornos estão sempre presentes em imagens para caracterizar alquimistas e químicos em seus laboratórios. Isso indica que tais instru- mentos, utilizados no processo de destilação, têm papel destacado no imaginário relativo tanto à alquimia quanto à química. Essa idéia não deixa de ter fundamento, pois a destilação há muito tempo vem sendo uti- lizada tanto nas artes que envolvem o trata- mento e a transforma- ção de materiais quanto por estudiosos que buscavam afirmar ou elaborar idéias sobre a composição da maté- ria. Hoje em dia, a des- tilação, processo baseado nas diferen- ças entre o pontos de ebulição das substâncias, é adequadamente expli- cada pela idéia de que a matéria é formada por partículas que se movi- mentam e interagem. O fracionamento do petróleo, a obtenção de álcoois e a extração de essências são apenas alguns exemplos de processos em que a destilação é empregada na indústria. Além disso, a destilação é um dos principais métodos de purifi- cação de substâncias utilizados em laboratório. Assim, a importância des- se processo tão bem conhecido e claramente interpretado por meio de modelos sobre as partículas que cons- tituem a matéria justifica sua inclusão em qualquer curso de química de nível mé- dio. Entretanto, nem sempre a destilação foi considerada uma operação tão trivial. Desde suas origens e durante um longo pe- ríodo, a destilação es- taria ligada à prepa- ração de poderosas ‘águas’ e à obtenção da ‘pedra filosofal’, do maravilhoso ‘elixir’ que promoveria a cura de todas as doenças dos metais e dos homens. Seria também por meio da destilação que os iniciados extrairiam as ‘quin- tessências’ de vegetais, minerais e partes de animais, obtendo-se dessa forma puríssimos e poderosos medi- camentos. Desde as suas origens e durante um longo período, a destilação estaria ligada à preparação de poderosas ‘águas’ e à obtenção da ‘pedra filosofal’, do maravilhoso ‘elixir’ que promoveria a cura de todas as doenças dos metais e dos homens QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Destilação N° 4, NOVEMBRO 1996 Maria Helena Roxo Beltran Destilação: a arte de “extrair virtudes” Possíveis origens da arte da destilação Pode-se considerar que a destila- ção foi um dos desenvolvimentos promovidos pelos alquimistas alexan- drinos nas técnicas de se operar sobre a matéria. Tal consideração baseia-se nos estudos realizados sobre os textos produzidos na Antigüidade que che- garam até os dias de hoje. Conforme tais estudos, termos como ambix , lopas ou cucurbita e mesmo desenhos de alambiques estariam presentes apenas nos escritos dos alquimistas alexandrinos 1 . De fato, nas principais fontes dos textos alquímicos alexan- drinos que sobreviveram até nossos dias em cópias manuscritas feitas en- tre os séculos XI e XV, estão algumas figuras de instrumentos que os químicos de hoje podem facilmente associar com aparatos destilatórios. Entretanto, apesar das semelhan- ças observadas entre essas figuras e os instrumentos atualmente utilizados, o processo de destilação era realizado naquela época num contexto muito di- ferente do atual. A destilação era uma operação alquímica, relacionada por- tanto a um corpo conceitual originário de hibridizações entre idéias mágicas, religiosas e filosóficas, associadas aos conhecimentos envolvidos nas prá- ticas artesanais egípcias. No laboratório, o alquimista procu- rava operar sobre a matéria de modo a aperfeiçoá-la, imitando o que se acre- ditava ocorrer na natureza. Admitia-se que os metais seriam originados no inte- rior da terra e se aperfeiçoariam por um processo análogo à gestação. Assim, a transmutação que ocorreria natural- mente, mas num tempo muito longo, poderia ser acelerada pelas operações alquímicas. Dessa forma, admitia-se que os conhecimentos alquímicos permitiam ao adepto controlar as forças naturais. Por isso, esses poderosos