Inara Zanuzzi, “Aristóteles e os animais”, IN: Oliveira, Jelson, Filosofia Animal, PUCPress, 2016, cap.1. Aristóteles e os animais Inara Zanuzzi (UFRGS) A primeira coisa a observar quando nos aventuramos a apresentar a visão aristotélica sobre os animais é que estes se encontram no conjunto mais amplo dos seres naturais, isto é, seres que têm em si o princípio do movimento ou do repouso e, dentro deste conjunto, dos que têm vida, isto é, o seu princípio interno de movimento e repouso é chamado de alma. Aristóteles define esta última como a atualidade primeira de um corpo organizado 1 . Na metafísica aristotélica, isto significa dizer que a alma é o elemento dos seres naturais que organiza sua matéria de tal modo a que realizem o tipo específico de seres que são, incluindo os movimentos que executam para a realização plena disso. Essa é uma definição ampla o suficiente para capturar todos os seres vivos naturais, plantas e animais. Segundo Aristóteles, com efeito, mesmo as plantas têm um corpo organizado (suas raízes, p.e., são como bocas à procura de alimento na terra e outras suas partes desempenham outras tarefas 2 ) e uma forma, sua alma, que lhes permite realizar sua vida de plantas. A definição, entretanto, não é capaz de dar conta dos modos suficientemente diferentes em que vivem plantas, animais e seres humanos. A forma e, portanto, a alma, também determina, segundo a metafísica aristotélica, os fins próprios a serem alcançados por cada tipo de ser. Estes não são senão a realização da natureza daquele ser. Assim, cada ente natural tem em si as capacidades para a realização do seu modo de vida que é, para este ente, sua forma e seu fim. A alma é, portanto, princípio de movimento e também causa final – na medida em que a sua plenitude é um fim – para a entidade natural. É nessa perspectiva que devemos entender os diferentes tipos de alma dos seres vivos. Com efeito, os seres vivos se diferenciam por suas capacidades e formas de vida: a nutrição para as plantas, a sensação para os animais, a razão para o ser humano. Há uma relação de sucessão entre estes tipos de ser natural animado: Há uma similaridade entre o caso das figuras geométricas e o caso da alma, pois tanto no caso das figuras quanto no dos seres animados o anterior está em potência no sucessivo, isto é, o triângulo está em potência no quadrado, o que tem capacidade de nutrição está em potência no que tem capacidade sensível. Consequentemente, deve-se buscar caso a caso o que é a alma de cada um, isto é, qual é a do vegetal e qual a do ser humano ou do animal. Deve-se investigar, porém, qual a razão por que elas estão nessa relação de sucessão. Com efeito, não há capacidade sensível sem a de nutrição, mas, no caso dos vegetais, a capacidade de nutrição é encontrada sem a sensível. Sem a capacidade do tato, por seu turno, nenhuma das capacidades sensíveis se dá, mas o tato ocorre sem qualquer das outras. De fato, muitos animais não têm como sensação nem visão, nem audição, nem olfato. E dos seres que têm capacidades sensíveis, alguns têm a capacidade locomotora, outros, não. Finalmente, a menor parte deles têm também raciocínio e 1 Cf. De Anima II, 1, 412b1. 2 Cf. De Anima, II, 1, 412b5. 1