Capítulo 3 25
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Antropologia: Aspectos Sociais,
Culturais e Ritualísticos
Edward MacRae
Atualmente é comum se dizer que uma
abordagem exclusivamente farmacológica da
questão da droga não é suficiente, e que os efei-
tos tanto individuais e subjetivos, quanto os
sociais do uso de substâncias psicoativas só
podem ser entendidos a partir de uma pers-
pectiva biopsicossocial.
Richard Bucher chega a afirmar que não
existe droga a priori, uma vez que são a ativi-
dade simbólica e o conjunto das motivações
no consumidor que transformam uma substância
psicotrópica em droga, levando à sua integra-
ção de maneira estável na estrutura motivacio-
nal do consumidor. Sua abordagem privilegia
a noção do consumidor como sujeito ativo, não
necessariamente dotado de uma personalida-
de patogênica, mas alguém que, como todo ser
humano, utiliza símbolos para se comunicar
consigo mesmo e com seu ambiente. Estes ele-
mentos simbólicos, ao escaparem a toda deter-
minação estrita, significam que a subjetividade
e, portanto, a identidade do indivíduo, não são
adquiridas em definitivo e são constantemen-
te postas em questão cada vez que ele interage
com seu meio. Assim, uma substância quími-
ca só se torna uma droga provocando depen-
dência dentro de um determinado contexto de
!
!
relações entre atividades simbólicas e am-
biente. A partir desse ponto de vista, no estudo
da evolução da toxicomania, o efeito puramen-
te fisiológico da droga importa pouco, já que
se trata de compreender a interpretação que o
indivíduo dá de sua experiência, de seu estado
e da motivação que o impele a um consumo
repetido da droga. Torna-se, então, importan-
te estudar o que o usuário de substâncias psi-
coativas considera indispensável à satisfação
de suas principais necessidades no plano so-
cial, cultural, afetivo e cognitivo
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Obviamente isso não pode ser abordado
de maneira generalizante, uma vez que cada
indivíduo tem suas especificidades próprias,
mas podemos ao menos estudar a maneira
como o uso dessas substâncias assume feições
variadas em diferentes épocas e culturas, no
contexto das quais se formam as necessidades
individuais. Veremos assim que, longe de ter
uma natureza genérica, a “droga” assume di-
ferentes significados em diferentes ocasiões.
Uma maneira de se iniciar pode ser através de
um rápido recuo histórico que nos permita
constatar algumas das variações que têm ocor-
rido no modo de concebê-la. Para tanto recor-
remos às amplas pesquisas sobre o tema
levadas a cabo por Antonio Escohotado
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