Livro: Crítica e tradução do exílio Formas do realismo em narrativas africanas de língua portuguesa Ludmylla Mendes Lima (UNILAB) “O realismo não é um estilo, é uma exigência de racionalidade”. Herman Broch Grosso modo, toda grande literatura, toda literatura autêntica, é realista. Não se trata aqui de estilo, mas do ângulo de visão da realidade, da posição tomada diante dela. Mesmo o máximo do fantástico pode ser realista”. Gyorgy Lukács 1. Introdução Este artigo traz reflexões e resultados preliminares acerca de um projeto de pesquisa realizado na UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira) em nível de graduação. Nosso intuito é elaborar análises de romances africanos escritos em língua portuguesa a partir de uma noção ampla de realismo, em que a forma literária é compreendida como sedimentação dos conteúdos sócio-históricos nos quais elas estão inseridas. Na primeira fase do projeto selecionamos romances dos autores Pepetela e Luandino Vieira, de Angola; e Aldino Muianga, de Moçambique. Atualmente estamos ampliando o escopo do trabalho para as narrativas da Guiné-Bissau, inicialmente com o romance Kikia Matcho, de Filinto de Barros. Esta abordagem pretende abrir possibilidades de análise de romances africanos tendo por base a linha crítica proposta por Roberto Schwarz em seus trabalhos analíticos sobre a obra de Machado de Assis. Os trabalhos do crítico dizem respeito aos enfrentamentos formais empreendidos por Machado de Assis em sua busca por um realismo pertinente à realidade brasileira de fins do século XIX – ainda escravista – frente ao modelo do grande realismo europeu. Os problemas enfrentados por Machado de Assis no século XIX, enquanto intelectual periférico tendo como modelo as artes europeias, podem ser comparados às questões que se colocam aos intelectuais africanos no século XX, guardadas as devidas especificidades. São questões ligadas ao colonialismo e ao modo como as estruturas sociais e artísticas se comportam diante da necessidade de se construir uma identidade própria, sem ser possível ou desejável, no entanto, livrar-se da cultura do colonizador.