41 Anais do SEFiM Memória, luxo criativo e composição musical: uma visão do processo criativo a partir de conceitos de Bergson e Deleuze Memory, creative low and musical composition: a point of view of the creative process from concepts of Bergson and Deleuze Bruno Yukio Ishisaki* Resumo: este artigo apresenta um estudo sobre o luxo criativo na atividade composicional estruturado sobre recortes conceituais baseados na produção ilosóica de Gilles Deleuze e Henri Bergson. Neste texto, apresentamos três campos temáticos distintos: memória, luxo e composição musical, explorados a partir de uma conceituação ilosóica de contorno ontológico e ordenados segundo uma hierarquia na qual a memória atua como repositório para o luxo, que, por sua vez, articula e condiciona a gênese da composição musical. Palavras-chave: Memória. Fluxo. Composição Musical. Bergson. Deleuze. Abstract: this paper presents a study about the creative low in the compositional practice structured on conceptual zones based on the philosophical production of Gilles Deleuze and Henri Bergson. In this text, we present three thematic ields: memory, low and musical composition, explored from a philosophical conception of ontological outline and ordered according to a hierarchy in which the memory acts as a repository for the low, which in turn, articulates and conditions the genesis of musical composition. Keywords: Memory. Flow. Musical Composition. Bergson. Deleuze. A memória em Bergson e Deleuze Abordaremos o conceito de memória à maneira de Bergson, como um misto de per- cepção e lembrança: a partir de uma experiência da percepção (um convite à ação), sensações e afetividades advindas de uma profusão de reminiscências são trazidas à consciência. Tais sensações produzem associações entre a experiência do tempo presente e as afecções de experiências passadas, que se relacionam com este presente sob o estatuto da semelhança. Neste contexto, não se experimenta percepção e lembrança separadamente ou em totalidade, e sim em mistos correspondentes a uma realidade do objeto iltrada pelos órgãos da percepção, que se faz reconhecer por meio da lembrança: “a percepção não é o objeto mais algo, mas o objeto menos algo, menos tudo o que não nos interessa” (DELEUZE, 2012, p. 19). 1 * Universidade Estadual de Campinas. E-mail: brunoyukio@gmail.com. 1 Pode-se ler, nas entrelinhas deste enunciado, o posicionamento de Bergson e Deleuze em relação à problemática do sujeito-objeto, conhecida na História da Filosoia como a oposição entre racionalistas e empiristas. Bergson demonstra, em seu livro Matéria e Memória, que ambas as posições se assemelham mais do que se opõem; em ambos os casos, há o entrave de uma problemática mal colocada. A teoria da percepção de Bergson coloca-se como alternativa a esta dicotomia, e também se propõe a ser uma problematização mais soisticada da questão sujeito-objeto.