/ / '. FERNANDO PESSOA -IRONIA, MAS NAO s6 Onesimo Teot6nio Almeida* Tornou-se quase moda repetir que Pessoa e um poeta fundamentalmente ironico, signi6cando isso ter ele a natureza de uma bola de mercurio que, ao ser tocada, se parte em varias e que nunca se agarra num todo. 0 que ate nem seria desajustada metafora se alguns criticos nao partissem dai para transformar Pessoa num oximoro - a essencia do pos-moderno, 0 poeta da ironia, algo sempre do que diz. Assim, Pessoa seria sistemati- camente outro. E, todavia, ha urn Pessoa assinado pelo seu proprio nome, nao permitindo esse jogo absoluto do nao-ser (passe de novo 0 oximoro), precisamente 0 Pessoa ort6nimo, que assina a Mensagem e se declara urn "sebastianista racional" por acreditar que "0 mito eo nada que e tudo", dele se servindo por achar que essa poderia ser uma saida criadora para Portugal - tivessem os seus patriotas paciencia e mais vontade do que ele, Pessoa, para a cabo 0 que necessario seria fazer. Esse Pessoa age como um racionalista-empirico: busca e recolhe dados empiricos com rigor, raciocina sobre eles como urn exfmio 6l6sofo e cientista social. A esse nivel, e absolu- tamente urn moderno. Mas Pessoa sabe tambem e di-Io explicitamente em mais de urn lugar - que, relativamente ao futuro, a verdade e outra. Isto e, ha muitas verdades possiveis e, como nao sabemos qual sera a nossa, e nem sequer temos sobre qual devera ela ser, as possibilidades a nossa frente sao multiplas. Sendo assim, poderemos que bem quisermos. Brown University