DA RESTAURAÇÃO À RECONSTRUÇÃO: impasses conceituais nos debates patrimoniais do século XX e seus reflexos na contemporaneidade RODRIGUES, ANGELA ROSCH. (1) 1. Universidade de São Paulo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Doutora História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo Rua Aguapeí, 651, B. Santa Maria, Santo André, SP CEP: 09070-090 angelarr@usp.br RESUMO Na historiografia da preservação patrimonial do século XX a opção pela reconstrução mediante um incidente súbito e trágico se apresentou de forma contundente em diversos momentos. Este trabalho tem como objetivo apresentar um panorama de algumas das principais asserções teóricas desenvolvidas ao longo do século XX e respectivos desdobramentos em documentos internacionais que englobam a problemática do tratamento a patrimônios culturais arquitetônicos acometidos por destruições catastróficas causadas de forma antrópica (guerras, incêndios, acidentes, etc.) ou naturais (enchentes, terremotos, etc.) destacando aspectos pertinentes e extremamente atuais para confrontar essas situações de arruinamento como: o problema do falso histórico; a questão da autenticidade como delineada na Carta de Veneza (1964) e Documento de Nara (1994); o restabelecimento da unidade potencial da obra; o preceito da distinguibilidade dos materiais e técnicas em relação ao preexistente; o limite operacional da reconstrução como definido na Carta de Burra (1980); e o imperativo moral para a restituição da identidade cultural de uma comunidade a partir da reconstrução, conforme disposto na Carta de Cracóvia (2000). É possível constatar um ponto nodal nos debates patrimoniais: o impasse conceitual que envolve a diferença metodológica entre a restauração e a reconstrução de um bem arquitetônico. Segundo a definição que consta na Carta de Veneza, a restauração tem caráter excepcional visando conservar valores estéticos e históricos do monumento através do respeito à matéria preexistente. Já, operações como a reconstrução (o repristino e o refazimento) visam à reconstituição de uma imagem formal. Segundo alguns teóricos da preservação ligados à concepção do restauro crítico conservativo, a intervenção de reconstrução não poderia ser enquadrada no campo disciplinar da restauração. Para tal vertente, embora as fronteiras entre a restauração e a reconstrução pareçam difusas, não basta que a materialidade preexistente seja mantida enquanto suporte para a transmissão da imagem, é necessário verificar o método em que se opera esse tratamento para não incorrer em tendenciosas reconstituições estilísticas. Palavras-chave: preservação patrimonial, reconstrução, restauração.