1 A RESISTÊNCIA DO ARQUIVO Fábio Ramos Barbosa Filho 1 Mexer com documentos é uma aventura obstinada, para retomar a formulação utilizada por Alain Badiou quando trata – vejam só – do amor 2 . Aventura pela contingência estruturante desse passeio incerto do qual só sabemos, de saída, de um desejo que nos pega em algum lugar entre o teórico e o político; pelo impasse entre o documento presente, aquele que temos em mãos, e o próximo, do qual nada sabemos, mas que tanto ansiamos. Obstinada pela nossa firmeza e pela vontade de encontrar sentido nesse sem fim de vestígios, gestos, nomes, cifras, pedidos e condenações. Desde 2015, pois, eu me ocupo da leitura de documentos. Mas não quaisquer documentos. Documentos sobre a cidade de Salvador no século XIX: suas ruas, sua gente, seus modos de vida, suas formas de trabalho e de fazer trabalhar a contradição pungente entre as classes sociais e os conflitos étnico-raciais diante de uma formação social singular. Nesse passeio, me deparo constantemente com documentos que me fazem pensar as discursividades que organizavam a cena pública da cidade: suas revoltas e impasses, suas instituições entremeadas, seus personagens pitorescos, seus dramas. É lendo documentos que posso, também, ser tocado pelo sofrimento que desnorteia e que transborda da formalidade de um simples e frio Ofício. É disso que tenho me ocupado e é isso que vim dividir, com vocês: documentos que procuram dar conta de acontecimentos doloridos na cena pública da cidade de Salvador. Ciente, entretanto, do alerta provocador de Arlette Farge: “o sofrimento dos pobres é um tema forte” (FARGE, 2011, p. 21) que não deve provocar nem um voyeurismo adornado pela estética da crueldade, nem o miserabilismo caridoso que encerra a interpretação histórica em esquemas binários. O trabalho do analista de discurso diante de documentos tão comoventes quanto espantosos é, de modo incontornável, ético e político: se a dor não se separa da mágoa – o que nos faz pensar nas relações entre acontecimento e (res)sentimento – o gesto analítico não deixa de ser uma política consequente de arquivo e memória, de escuta no campo das disputas pelos sentidos dos fatos. Foi assim, passeando entre os inúmeros maços do Arquivo da Santa Casa de Misericórdia da Bahia (ASCMBA) que me deparei com um Ofício do delegado Joaquim Velloso dirigido ao provedor da Santa Casa no dia 1° de outubro de 1878. Neste documento que me tomou de assalto – uma diferença numa série – o espanto de um texto cru, unívoco e evidente, no qual o delegado solicitava ao Provedor da Santa Casa a admissão de uma alienada. Vejamos o que diz o Ofício: “Tendo sido encontrada ha quatro noites vagando pelas ruas d’esta cidade uma mulher de côr parda, ainda môça, 1 Doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Bolsista de Pós-Doutorado (CAPES), no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas sob a supervisão do Prof. Dr. Lauro Baldini. Pesquisador-associado do Centro de Pesquisas PoEHMaS – Política, Enunciação, História, Materialidades, Sexualidades, coordenado pela Prof a Dr a Mónica Zoppi-Fontana. Vice-líder do Grupo de Pesquisas PHIM – Projeto História, Inconsciente, Materialidades, liderado pelo Prof. Dr. Lauro Baldini. 2 Badiou, 2013.