DOI: http://dx.doi.org/10.1590/10.1590/2316-4018532 Traduzindo tolo: “eu canto o que ela cantou que ele disse que...” ou “quando cantamos somos todas hipermulheres” Bruna Franchetto 1 Sou apaixonado pela linguagem e não sei compor música. Tenho convicção de que são necessários muitos lugares dentro de si para ter alguma esperança de ser si mesmo. A construção do verso se tornou meu modo de observar o mundo. Isto facilita o trabalho de estar em contato com a memória, as lembranças, os sonhos. Os versos são linhas curtas, a poesia se serve da rima e de figuras formais que permitem leituras do mundo imediatas, profundas, rítmicas. Neste sentido, a poesia tem mais a ver com a música do que com a literatura. Serve para dar forma, conter e guardar a dor, uma interrupção da desordem, uma parada contra a confusão. A poesia se alimenta de desordem. Sem movimento amoroso, sem desejo, medo, abandono, o verso não chega. Quando o verso chega, porém, a desordem desaparece. Vittorio Lingiardi 2 O canto tolo e a peça musical kagutu Entre os povos Karib do Alto Xingu, sistema regional multilíngue e multiétnico da periferia da Amazônia meridional, tolo e jamugikumalu 3 são festas, danças e cantos executados exclusivamente por mulheres e que formam um complexo ritual e musical em contraste/complementaridade com as flautas kagutu, domínio masculino e interditas às mulheres. 4 Em Jamarikumalu, revive-se o mito das hipermulheres, a metamorfose que faz das mulheres, abandonadas pelos esposos, seres andróginos e poderosos, 1 Doutora em antropologia social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: bfranchetto@yahoo.com.br 2 Psicanalista e poeta italiano, autor de Alterazioni del ritmo (BookCity, 2015), em entrevista a Natalia Aspesi, no jornal La Repubblica, Roma, em 24 de outubro d e2015 (tradução nossa). 3 A variedade Kuikuro da Língua Karib do Alto Xingu é transcrita com a ortografia correntemente usada pelos indivíduos alfabetizados em língua indígena. 4 Este artigo contém partes de publicações anteriores (Franchetto e Montagnani, 2011; 2012; 2014; Franchetto, 1986; 1997; 2001) e de comunicação oral da autora, apresentada na XI Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), realizada em Montevidéu, de 1º a 4 de dezembro 2015.