45 Salas de cinema em São Paulo nos anos 1920: diferenciação social e gênero no imaginário crítico 1 Sheila Schvarzman Ir ao cinema é uma prática codificada: traduz não apenas um hábito, como revela formas de frequentação e distinção social, fruição estética, imaginações sobre a diversão, a cultura e as diferenciações de gêneros. Sua organização, ainda que influenciada pelas grandes companhias cinematográficas norte-ame- ricanas, toma em cada local aspectos próprios que revelam amálgamas culturais e sociais, bem como o lugar que a sociedade reserva para a mulher. Minha intenção, ao observar como esse processo se deu em São Paulo, entre 1925 e 1929, a partir dos escritos do crítico Otávio Gabus Mendes, é buscar compreender a complexa rede de relações que envolve real e imaginário, numa cidade provinciana, mas já em pleno crescimento urbano e modernização, mar- cada pelo surgimento de uma classe média que, desde 1922, manifestava nas ruas sua oposição à oligarquia dominante no país. Ao mesmo tempo, esse desen- volvimento devia-se, em boa medida, à dominação dos grandes produtores de café, mas já começava a entrar em conflito com a nascente industrialização e, por conseguinte, o surgimento de bairros operários populosos, em que a principal diversão era o cinema. Essa rígida divisão de classes, desembocando no desejo de segregação das camadas operárias, assim como suas contradições, manifes- tam-se nos textos de Gabus Mendes para as revistas Para Todos e Cinearte. A observação desse processo a partir dos registros de Gabus Mendes leva a indagar sobre o estatuto dessa atividade naquele período no Brasil, pois não se trata de um observador desinteressado: Otávio Gabus Mendes passaria da crí- tica à direção de cinema em 1929, de maneira que esses escritos carregam expec- tativas sobre o futuro tanto da produção como da recepção cinematográfica no país. São visões que dizem respeito à exibição dos filmes, a seu formato, aos 1 Este artigo é o resultado do desenvolvimento do texto “Ir ao cinema em São Paulo nos anos 1920”, publicado na Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 25, n. 49, p. 153-174, 2005. Nessa nova coniguração foi apresentado no Women and the Silent Screen Conference VI em junho de 2010 em Bolonha.