O Problema do Sumo Bem nas Lições de Ética de Kant Bruno Cunha (UFSJ) As Lições de Ética de Kant remetem-se às extensas anotações manus- critas tomadas pelos seus estudantes a partir de suas próprias Preleções (Vorlesungen) sobre filosofia moral em sala de aula. Esse material apareceu, pela primeira vez, em uma edição organizada e publicada por Paul Menzer sob o título de eine Vorlesung Kants über ethik em 1924. Todavia foi apenas posteriormente, em meados dos anos de 1970, que Gerhard Lehmann or- ganizou e realizou a publicação efetiva do material no tomo XXVII da edição completa das obras de Kant da Academia de Berlim. Mais recentemente, em 2004, o material foi reeditado e publicado por Werner Stark em uma edição separada. O que se pode constatar, a partir desses manuscritos, é que boa parte deles parece ter uma origem comum que remonta ao ano de 1777, permitindo-nos pressupor que o mesmo texto base foi usado por Kant, sem alterações substanciais, da segunda metade dos anos de 1770 até o período de 1788-1789. Isso mostra que, mesmo depois da publicação de suas primeiras obras morais, Kant não modificou o teor essencial de seu discurso acadêmico, sugerindo-nos que, se de fato as concepções das obras publicadas e as das Lições não são absolutamente idênticas, pelo menos Kant não parece tê-las julgado incompatíveis. Dentre os vários temas abor- dados nas Lições, um nos chama especialmente a atenção: trata-se do pro- blema do sumo bem, cujas linhas gerais já parecem estar estabelecidas em consonância com o argumento integral que seria apresentado, anos depois, na Crítica da Razão Prática. É verdade, como se tem destacado na literatura, que as hipóteses do sumo bem nas Lições e na Crítica da Razão Prática não são exatamente as mesmas. No entanto, é possível argumentar que suas diferenças são menos substanciais do que se tem conjeturado. Dentre as principais disparidades apontadas pelos intérpretes em relação ao argu- mento maduro, gostaríamos de destacar, em particular, duas: a concepção de que o sumo bem nas Lições é concebido como um móbil [triebfeder] ou Correia, A.; Hamm, C.; Perez, D. O. Kant. Coleção XVII Encontro ANPOF: ANPOF, p. 124-155, 2017