171 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V.13, N.2 / NOVEMBRO 2011 R E S E N H A S CAPITALISMO GLOBALIZADO E RECURSOS TERRITORIAIS: FRONTEIRAS DA ACUMULAÇÃO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO A. W. B. Almeida, A. Zhouri, A. A. R. Ioris, C. Bran- dão, C. Bermann, F. M. Hernández, G. N. Bezerra, H. Acselrad, J. A. Paula, K. Laschefski, M. C. N. Coelho, M. A. Monteiro, L. F. N. Garzon, L. H. Cunha e L. J. Wanderley Rio de Janeiro: Lamparina, 2010 Humberto Miranda do Nascimento Professor do Instituto de Economia e coordenador do CEDE – Centro de Estudos do Desenvolvimento Econômico da Unicamp O livro conta com a participação de autores vinculados a cinco grupos de pesquisa brasileiros dedi- cados ao estudo e à geração de conhecimento aplicado sobre a relação capitalismo e território, desdobrando-a em nove temas que vão desde o amparo teórico neces- sário e permanente da crítica ao capital, como também aos novos desafios políticos colocados à sociedade pelas frentes de expansão do capital vis-à-vis aos crescentes conflitos pelo território. Os pesquisadores do Ettern- UFRJ, do Gesta-UFMG, do Gapta-UFRJ, do Nesur- Unicamp e do PNCSA-UEA/UFAM proporcionam, assim, ao leitor uma visão crítica enriquecedora do debate acadêmico. No primeiro tema, Crise econômica e reiteração do capitalismo dependente no Brasil, de João Antônio de Almeida, a crise econômica atual é discutida à luz do enfoque estruturalista, chamando atenção para a distinção entre aquilo que chama de “crise financeira neoliberal” e a crise mais geral do capitalismo, uma “crise sistêmica, mundial e de hegemonia”. Trata-se da distinção entre seus elementos conjunturais e mais estruturais. Nesse sentido, o autor, além de retomar o que foi a crise de 1930 até o neoliberalismo, volta-se ao cenário da crise de 2007-2008 buscando entender as razões que reforçam o capitalismo dependente. Acumulação primitiva permanente e desenvolvi- mento capitalista no Brasil contemporâneo, de Carlos Brandão, é o segundo tema e traz relevante discussão a respeito do caráter expropriador-(re)apropriador de recursos territoriais no capitalismo brasileiro. Apresen- ta uma fecunda fusão de perspectivas teóricas críticas oriundas de autores fundamentais do marxismo (Marx, Lênin e Luxemburgo), passando por autores como Da- vid Harvey e Roman Rosdolsky e contextualizando a abordagem brasileira a partir de Wilson Cano, Concei- ção Tavares, Chico de Oliveira, Lúcio Kowarick, entre outros, retomando e sofisticando o conceito de acu- mulação primitiva, agora, permanente. Vai chamar a atenção para “a lógica econômica da valorização fácil e rápida... de natureza imediatista, rentista e patrimonia- lista” (p.49) que se estabelece na “estrutura genética” do capitalismo no Brasil ao articular as várias frações do capital, nacional e internacional, que operam (sobre) a “plataforma territorial-econômica” do país. Através da lógica mercantil, rentista, parasitária e financeira forja- se o descompromisso com o projeto nacional de desen- volvimento, gerando/gerindo verdadeiras “máquinas de produção de múltiplas desigualdades”. No terceiro tema, Financiamento público ao desen- volvimento: enclave político e enclaves econômicos, de Luis Fernando Novoa Garzon, o autor analisa o papel do fi- nanciamento público dos investimentos em infraestru- tura no Brasil nos últimos anos, chamando a atenção para um importante agente, o Banco Nacional de De- senvolvimento Econômico e Social – BNDES. Aqui, o autor destaca o project finance do banco, amparado pela Lei das Parcerias Público-Privadas (Lei 11.196/2005), como instrumento central para viabilizar as garantias oferecidas. A observação importante está no fato de o Estado passar a negociar com o setor privado não mais por meio de vetores econômicos equivalentes e social- mente convalidados, mas tornando-se mero canal de negociação privada, impermeável às demandas sociais. O capital privado encontra, assim, um subsidiador franco da drenagem da base de recursos naturais do país, arrastando consigo uma sociobiodiversidade (por- tadora de valores de uso) que deveria servir de potencial de desenvolvimento das populações tradicionais, para commoditizar o território e seus frutos (criando valores de troca). Além de descrever a mudança na forma de atuação do banco, dentro daquilo que chama de “etapa superior do capitalismo brasileiro”, nas reflexões sobre o papel do BNDES, o autor sintetiza de forma perti- nente na expressão “O BNDES que temos e o país que não temos” aquilo que deveria ser o verdadeiro papel do banco público de investimento, o seu “S” , especial- http://dx.doi.org/10.22296/2317-1529.2011v13n2p171 DOI: