PERCEPÇÕESDAELITE SOBRE POBRE ZAE DE SIGUALDADE E lisa P. Reis RBCS Vol. 15 n o 42 fevereiro/ 2000 Introdução Pobreza e desigualdade são temas tradicio- nais das ciências sociais, embora no Brasil os economistas pareçam às vezes mais preocupados com essa questão do que os sociólogos, antropólo- gos ou cientistas políticos. Poder-se-ia buscar justi- ficar isso argumentando que a E conomia está mais próxima às questões de formulação de políticas sociais, uma vez que estas envolvem opções quan- to à aplicação de recursos escassos. Contudo, não é fácil explicar por que a pobreza e a desigualdade são relativamente negligenciadas nas outras ciênci- as sociais, já que — além da indiscutível dimensão ética — colocam questões teóricas tão centrais em nossas disciplinas. Como não se perguntar, por exemplo, sobre os fundamentos da solidariedade social em socie- dades que exibem níveis de desigualdades tão acentuados como a brasileira? A pergunta clássica da Sociologia, “o que torna possível a sociedade?”, é inevitável quando se observa que as experiências de vida de diferentes setores da população são tão discrepantes e muitas vezes incomensuráveis. O que é que preserva o status quo? Como e por que uma dada ordenação social se torna aceitável ou legítima? Parece bastante claro que a capacidade de empatia decresce significativamente à medida que nos diferenciamos socialmente do outro. Isso explica, embora não justifique moralmente, por que as tragédias e vicissitudes que abalam a classe média repercutem muito mais na mídia que aque- las que vitimam as classes baixas. Se há baixa capacidade de empatia entre setores muito díspa- res da sociedade, como se resolve a questão da cooperação? É preciso reconhecer que grupos desprivile- giados têm, sim, sido objeto de muita atenção nas ciências sociais brasileiras. E ntretanto, meu argu- mento aqui é que, salvo notáveis exceções, tem faltado maior empenho nos estudos de caráter mais sistemático entre os cientistas sociais. Tem sido também negligenciada a análise da formula- ção e implementação de políticas sociais, assim como a análise de como grupos e setores particu- lares vivenciam e interpretam a pobreza e a desi- gualdade. No que diz respeito a esse último tipo de preocupação, é verdade que os muitos estudos de caso disponíveis entre nós sobre estratégias de sobrevivência visam, em última instância, lançar luz sobre a questão da pobreza. Contudo, seja por Dossiê desigualdade