1 Os relativizadores que e quem em contextos preposicionados: análise de uma mudança do português clássico ao moderno Aroldo de Andrade Universidade Federal de Minas Gerais O presente texto examina a mudança no uso dos relativizadores que e quem em contextos pre- posicionados, do português clássico ao português moderno. A partir de uma pesquisa baseada em corpus sintaticamente anotado, foram enfocadas as orações com antecedente [+humano], a partir das quais notou-se um número considerável de frases com que nos séculos XVI e XVII, contrariamente ao observado na língua contemporânea, em que tal uso é marginal. Os contextos preferenciais de que foram as orações restritivas, os sintagmas relativizadores adjuntos e oblí- quos, e os antecedentes não específicos. A partir daí, propõe-se que o relativizador que passou por um processo de gramaticalização nesse contexto, passando de sintagma numeral a sintagma determinante, sempre com um nome nulo modificado. Em consequência da nova combinação de traços de que, o relativizador quem passou a ocupar mais contextos, com a passagem para o português moderno, no século XVIII. Finalmente são discutidas algumas implicações dessa proposta. Palavras-chave: relativizadores, português clássico, português moderno, gramaticalização. 1. Introdução * No português europeu moderno (PEM), há distribuição bastante clara entre relativi- zadores quando precedidos por uma preposição: que acompanha elementos não hu- manos, e quem acompanha humanos. Por exemplo, vide as sentenças de Mateus et al. (1989:287): (1) a. Estão a nascer as flores da árvore a (que / *quem) cortei alguns ramos. b. Apareceu o homem a (quem / ?que) fizeram tanto mal. * O presente trabalho se insere no Projeto Temático A língua portuguesa no tempo e no espaço (pro- cesso Fapesp 2012/06078-9). Agradeço à plateia do IV CILH em homenagem a Ivo Castro pelas su- gestões.