5 Apresentação do Dossiê Aquisição Transnacional de Terras (Land Grabbing) Alexandre Cesar Cunha Leite 1 Thiago Lima 2 DOI: 10.5752/P.2317-773X.2017v5.n2.p5 INTRODUÇÃO O movimento global de aquisições transnacionais de terra – tam- bém referenciado na literatura como land grabbing, land rush, acarapamien- to e estrangeirização de terras – é um tema que ganhou atenção desde a crise alimentar de 2007/08. Milhões de hectares têm sido negociados em âmbito doméstico e internacionalmente, utilizando-se de mecanismos diversos, tomando formas novas e tendo motivações de origem variada, gerando, na maioria dos casos, efeitos sociais e ambientais negativos. Embora não se trate de um fenômeno exatamente novo, a sua re- cente intensidade e suas características contemporâneas trazem particu- laridades que têm mobilizado agentes públicos, operadores do mercado de capitais, membros da sociedade civil e da academia. Este fenômeno e sua dinâmica instigam um debate inter e multidisciplinar que efetiva- mente conecta dinâmicas globais e efeitos locais (COTULA, 2013; ZIE- GLER, 2013; SASSEN, 2016). Neste início de século XXI, quatro crises parecem ter impulsiona- do a gana de atores privados e estatais pelo investimento em terras. São as crises econômica, energética, climática e alimentar. Essas crises e o somatório de suas repercussões e reações parecem ter impulsionado os agentes com poder de investimento a buscarem tanto a redução de incer- tezas quanto ganhos especulativos (BRAUTIGAM, 2013; RIDELL, 2013; ZETLAND & MOLLER-GULLAND, 2013). Este movimento global de aquisições de terra (e seus recursos na- turais) constitui um fenômeno extremamente complexo e multifacetado. Dentre o vasto leque de atores e autores que se encontram envolvidos neste tema, há aqueles que defendem que ele sequer existe, simplesmente porque não há nada de novo – seria o tradicional imperialismo, ou nem isso seria (OLIVEIRA, 2010; PELUSO, LUND, 2011). No lado oposto en- contram-se vozes representadas por movimentos rurais, como a Via Cam- pesina, e organizações internacionais, como o Banco Mundial, o Comitê de Segurança Alimentar da FAO e a Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento, que enxergam concretude suiciente na di- nâmica das aquisições transnacionais de terra para debaterem a utilidade de se construir uma governança global para normalizar essas transações, bem como os riscos que tais operações e consequências geram para a so- 1. Docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Relações Interna- cionais pela Universidade Estadual da Paraíba e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional da Universidade Federal da Paraíba. https://orcid.org/0000-0002-0209-2717. 2. Departamento de Relações Inter- nacionais - DRI/UFPB, Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional (PGPCI/UFPB). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB. estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.5 n.2 (2017), p.5 - 12