Fabiana Pavel | 21 5.2 a Arquiteta italiana, doutora em Arquitetura, especialidade em Conservação e Reabilitação, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Investigadora do CIAUD e membro e do Grupo de Estudos Sócio-Territoriais, Urbanos e de Ação Local (Gestual-CIAUD/FA-UL). tar as transformações urbanas também à luz de quem delas vai usufruir e de quem por elas pode ser excluído (Semi, 2015, p.105). Neste contexto, este texto propõe reletir, do ponto de vista urbanístico, arquitetónico e cultu- ral, sobre as mudanças que o turismo de massas traz nos territórios e nas cidades. O texto constitui-se como ensaio teórico e pretende, através duma metodologia hipotéti- co-dedutiva, relacionar conceitos teóricos pre- sentes em parte da literatura cientíica existente neste campo de investigação, com o objetivo de permitir ao leitor uma relexão ampla sobre o tema. A metodologia adotada não inclui a análi- se de um ou mais casos de estudos. Alguns casos empíricos, documentados na bibliograia dedi- cada aos estudos urbanos recentes, serão inter- calados no texto para melhor ilustrar as questões teóricas expostas. Importa referir que a discussão em torno da gentriicação tem subjacente visões dicotómicas, sendo que o processo pode ser lido de diferentes ângulos e pontos de vista, levando a avaliações distintas do mesmo fenómeno. O presente texto segue a abordagem cientíica delineada por Smi- th (1987, 2002), e que tem como principal foco Introdução Nas últimas décadas, o turismo tem evoluído e mudado de feições de forma radical, tornando- -se um fenómeno de massas. Se por um lado esta situação permite uma maior democratização da viagem, antes apanágio de alguns privilegiados, por outro tem vindo a alterar de forma cabal os territórios e as cidades. A indústria turística tende a fabricar cenários atemporais, utilizando um marketing urbano que reinventa os conceitos de cultura e história, retirando aos lugares a sua identidade, ou trans- formando-os em zonas híbridas desprovidas de valor histórico. O espaço histórico-cultural é aproveitado para uso dos turistas, aos quais, em muitos casos, é oferecido um cenário atem- poral e disneyicado (Delgado, 2006, p.21). Por sua vez, o turista é levado a criar expectativas de consumo do mesmo espaço que é essencial para o morador como condição de estar no mundo. Surgem assim processos de tourism gentriica- tion (turistiicação) que podem conduzir a con- litos de que os moradores (em muitos casos de parcos recursos económicos) podem sair desfa- vorecidos. Neste sentido, é importante interpre- Resumo O turismo tornou-se um fenómeno de massas e um instrumento das políticas neoliberais. É uma das indústrias atualmente mais importantes, estimulando diversas cidades a apostar nele como estratégia de crescimento económico. No entan- to, o turismo tem consequências para paisagens, cidades e populações. A comercialização da cidade pode provocar fenómenos de turistiicação, levando à segregação socio-espacial da população residente. Este texto constitui-se como um ensaio teórico que, através de um olhar crítico, pretende reletir sobre estas temáticas. Palavras-Chave Turistiicação; Deslocamento; Mercantilização da cidade; Direito à cidade. Abstract Tourism has become a phenomenon of earth and an instrument of neoliberal policies. It is one of the industries currently more important, factor that stimulates diferent cities to invest in tou- rism as a strategy for economic growth. However, tourism has consequences for landscapes, cities and populations. The commodiication of the city can lead to phenomena of tourism gentriication, leading to socio-spatial segregation of the resident population. This text constitutes a theoretical essay that, through a critical look, aims to relect on these themes. Keywords Tourism gentriication; Displacement; Commodiication of the city; Rigth to the city. Fabiana Pavel a Turismo e mercantilização da cidade