1 Uma história visual e os passados possíveis A propósito da prática artística de Rosângela Rennó Publicado em Fronteiras: arte, imagem, história.1 ed. Rio de Janeiro : Beco do Azougue, 2014, v.1, p. 133-156. Ana Maria Mauad “A dialética entre o ver e o não-ver interroga o conhecimento como fruto do sensível, defendendo a ponte entre o dado e a abstração que permite ver onde os outros não veem. Trata-se de definir o olhar como pensamento e fazer dele matéria do conhecimento histórico” (Paulo Knauss, O desafio de fazer História com imagens: arte e cultura visual, ArtCultura, Uberlândia, v. 8, n. 12, p. 97-115, jan.-jun. 2006, p. 115) No dia 27 de setembro de 2012, no âmbito do 21 o Encontro Nacional da ANPAP, participei como mediadora de uma mesa redonda intitulada “Ficção, imagem e história”, composta pela artista visual Rosangela Rennó e por Marcio Seligmann-Silva, professor de Teoria Literária na UNICAMP. Creio que no convite, tanto pela minha vinculação institucional quanto pela trajetória dos meus trabalhos, estava implícito a necessidade de colocar em questão o lugar ocupado pela história, nos debates contemporâneos sobre a produção visual no campo das artes. A mesa se iniciou com a Rosângela Rennó e o relato de sua experiência artística. O seu relato foi pontuado pela apresentação de seus trabalhos, cada qual associado a uma história que remontava a uma experiência que havia mobilizado o processo de criação. Histórias dentro de histórias reveladas pelas sua obras que me ofereceu uma oportunidade excepcional para me aproximar de sua produção artística da maneira mais interessante possível, ou seja, por meio da sua própria rememoração. Sem contar, é claro, o valor agregado pelos comentários que Marcio Seligmann-Silva, cuja sensibilidade, projetou a obra da artista no campo da estética, tratando, em especial, da tensão entre ficção e história nas formas de narração do passado por diferentes sociedades. O relato da artista me suscitou uma questão, levantada no momento do debate, que acabou por definir o ponto de partida para a reflexão que desenvolvo neste texto: “Por que o passado faz diferença? Toda a sua obra está perpassada por uma arqueologia que se apropria dos vestígios do passado de uma maneira especial. Por que o passado faz diferença para a sua prática artística?” E a resposta foi a seguinte: “é matéria de imaginação”. Como matéria de imaginação, o que passou como experiência emanada de vestígios dela mesma, deixa de ser o passado para se tornar um passado possível. Dentre tantos