III SEMINÁRIO DE ESTÉTICA E CRÍTICA DE ARTE DO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO 4 a 6 de setembro de 2017 101 Tragédia e comédia em Alenka Zupančič: psicanálise, estética e política Artur Sartori Kon A célebre frase de Marx segundo a qual a História se repetiria sempre, primeiro como tragédia e depois como farsa, tem sido ela mesma repetida à exaustão desde a publicação do seu 18 Brumário, por exemplo entre a esquerda brasileira desde o ano passado, para apontar uma semelhança entre o Golpe Militar de 1964 e o Golpe Parlamentar a que assistimos, embora frequentemente a farsa adquira tons profundamente trágicos. Slavoj Žižek, dando o título Primeiro como tragédia, depois como farsa para um de seus livros, recomenda “lembrar que, na introdução de uma edição da década de 1960 de O 18 de brumário, Herbert Marcuse deu mais uma volta no parafuso: às vezes, a repetição disfarçada de farsa pode ser mais aterrorizante do que a tragédia original”. Essa mesma mistura era apontada pelo filósofo esloveno nos “dois eventos que marcaram o começo e o fim da primeira década do século XXI: os ataques de 11 de setembro de 2001 e a crise financeira de 2008”, vistos por ele como duas mortes da utopia neoliberal de Francis Fukuyama (2011, p. 18). Abrindo o livro, ele avisava: “A intenção do título deste livro é ser para o leitor um teste de QI elementar: se a primeira associação que lhe vier à cabeça for o clichê anticomunista usual (“Tem razão; depois da tragédia do totalitarismo no século XX, todo esse papo de volta ao comunismo só pode ser farsa!”), então eu o aconselho sinceramente a parar por aqui” (ibid., p. 15). De todo modo, o trágico e o farsesco ou cômico parecem pulular na política do século XXI, atrelados sobretudo às constatações de um tempo do fim: fim da história, das ideologias, do projeto moderno, da crença na possibilidade de um mundo radicalmente outro. Um tempo sem saída nos obrigaria a uma séria tarefa de desilusão, sobriedade e conformação (seja para melhor aceitar o mundo como está dado, na ideologia neoliberal da “pós-história”, seja para buscar possibilidades realmente existentes de mudança, sem pretensões desmedidas, como na busca Por uma esquerda sem futuro do crítico marxista T. J. Clark). Comédia e tragédia seriam apenas dois modos de ver essa tarefa, decidindo-se pelo luto melancólico em relação às ilusões perdidas ou pela alegria de um novo tempo das desilusões. Essa referência a duas categorias fundamentais da estética teatral pode parecer mero caso de abuso pelo senso comum, pouco digna de ser investigada mais a fundo. Buscaremos aqui recorrer ao pensamento de uma colega de Žižek [1], a filósofa Alenka Zupančič, para refutar essa ideia, mostrando como o esmiuçamento de um pensamento estético diz muito sobre o discurso do capitalismo atual, bem como sobre a possibilidade de a experiência estética apresentar uma força indutora de posições subjetivas de alta voltagem ética e política. Mas para isso será preciso construir uma distinção fundamental entre a verdadeira tragédia e o senso comum sobre o trágico, entre a verdadeira comédia e o senso comum sobre o cômico, entendendo esse senso comum como ideologia em relação à qual a obra de arte pode se colocar dissensualmente. 1. Se a filósofa dedicou um livro especificamente à comédia (ao qual nos voltaremos mais adiante), a reflexão de Zupančič sobre a tragédia se encontra no livro Ética do Real, em que a filósofa parte da aproximação entre o pensamento sobre a ética em Kant e Lacan para desenvolver sua própria visão sobre temas como liberdade, causalidade, o Mal absoluto e o ato. Contudo, o