In Imagem-Conhecimento. Samain, Etienne (org.). Campinas, Papirus, 2006. Modos de ver a classe trabalhadora no cinema Ana Lúcia Marques Camargo Ferraz Nesse artigo retomo um olhar sobre o cinema documentário brasileiro que se caracteriza por essa abordagem do concreto, que parte do empírico, da vida social, fonte de representações importantes sobre a classe trabalhadora brasileira. Primeiro teço um paralelo entre a abordagem do cinema documentário e a das ciências sociais. O cinema e, mais recentemente, o vídeo, têm sido incorporados como meios de comunicação intercultural e instrumentos de pesquisa, por serem formas potentes de produção de representações. O cinema é relação, o filme documenta a relação entre o cineasta e os homens que atuam frente às câmeras. Nesse trabalho procuro me afastar de um desvio realista que confunde a representação do real com o real ele mesmo. Essa primeira forma de conceber a imagem reduz o objeto filmado à perspectiva do homem que filma, sem considerá-la. Outra abordagem bastante difundida é a que tende a considerar a representação do real como produto da visão de um autor, um artista, de todo modo, um indivíduo. Visão igualmente situada em seu tempo e espaço, que tem no individualismo sua matriz. Percebendo a inserção historicamente construída das perspectivas e verdades de época, temos a considerar que as técnicas, os modos de ver, as perspectivas são construções que se formam socialmente. São, portanto, heranças incorporadas que se tornam atuantes nas relações sociais. Berger (1974) já nos advertia sobre as influências que os temas fundamentais de uma época exercem sobre sua produção pictórica. Os modos de ver, os objetos legítimos e os inevitáveis constituem-se historicamente. O filme é o modo de estabelecer uma relação de comunicação com o sujeito filmado, em que o discurso verbal, o olhar, sensações, percepções, possibilitam uma relação que é corporal e mediada pela câmera. No momento das filmagens, sujeito e objeto tomam parte da mesma obra. É desse ponto de vista que coloco a questão da participação. Para David MacDougall (2001: 26) “o filme é um modo de mostrar para o outro como eu o vejo e o espaço entre o sujeito que filma e o sujeito filmado é um espaço em que a consciência é