[-] www.sinaldemenos.org Ano 5, n°9, 2013 342 Os devotos do Santo Anônimo Sobre “as visitas que hoje estamos” Cláudio R. Duarte “(...) o discípulo Santos cuidava agora de umas liquidações últimas e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas também de pão e seus compostos e similares.” (Machado de Assis, Esaú e Jacob, 1904). O romance, no Brasil, foi um gênero importado. Até pelo menos Machado de Assis, faltava uma tradição convincente. A pesquisa de formas e materiais historicamente específicos, capazes de exprimir a mediação incontornável do país no mundo burguês ocidental, foi assim impulsionada a partir desse mais que reconhecido “mestre na periferia do capitalismo” (R. Schwarz). A forma romance ganharia aqui então contornos diferentes em relação ao centro europeu. A romance de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira 1 , escritor de Mococa e da Capital (SP), hoje morando em Arceburgo (MG), segue até certo ponto a linhagem inventiva que vem de Machado, Mario, Oswald, Rosa, Drummond e vai até às muitas variantes da literatura contemporânea, com Loyola Brandão ( Zero), João Antônio, Rubem Fonseca, Francisco Alvim, Raduan Nassar, Luiz Ruffato, entre tantos outros. Ao mesmo tempo, pesquisa novos conteúdos de expressão e organização formal. O resultado é um romance de lembranças e de vozes, muitas vozes, correlatas a um ouvido aguçadíssimo e a uma mão hábil na escrita em vários registros temporais e formações estilísticas: prosa em terceira e primeira pessoa, monólogos interiores, diálogos, lendas, rezas e orações, provérbios, “causos”, poemas, epigramas, chistes, cenas teatrais, aforismos, certo ensaísmo contido, fotografias comentadas e talvez outros ainda, pois a matéria está aqui para sobrar, sem pontos finais – com o efeito calculado de exceder e quebrar as regras e convenções, em que o escritor recria uma das 1 Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, as visitas que hoje estamos. São Paulo: Iluminuras, 2012.