1 Independência ou Sorte? Historiografia Brasileira acerca da Independência do Brasil: Da Narrativa do Elogio ao Ressentimento e à Possibilidade de Crítica Reconstrutiva. Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira 1 David Francisco Lopes Gomes 2 I Advertências “Viva pois a história, a volúvel história que dá para tudo” (MACHADO DE ASSIS, 1988, p. 8) A frase em epígrafe diz bem mais do que diz. Para além de uma apologia da história, o que ela propõe, uma vez lida a partir do traço irônico que caracterizaria o realismo machadiano, é uma crítica dessa mesma história. Loureira história (MACHADO DE ASSIS, 1988, p. 7). Um antigo provérbio africano afirma que enquanto não houver leões historiadores a história das caçadas sempre privilegiará os caçadores. Nessas poucas palavras, resume-se muito do que vem sendo produzido, já há alguns séculos possivelmente, provavelmente até, desde aquele momento, tão originário quanto perdido, a partir do qual se tornou possível falar de história (RICOEUR, 2007, p. 149-150) , em termos de historiografia, de teoria da história e, sobretudo, de filosofia da história. Narrar é uma arte, é verdade. E, quando o silêncio, ao invés das narrativas, aparece como o fruto da experiência, sinal existe de que algo importante se perdeu talvez a própria possibilidade da experiência (BENJAMIN, 1994a). Mas, sem deixar de ser uma arte, narrar é também um poder, ou, se se preferir, a instauração de uma relação de poder. Não por acaso Michel Foucault convidaria a compreender os esforços narrativos feitos a partir do século XVI na 1 Mestre e Doutor em Direito (UFMG). Pós-Doutorado em Teoria do Direito (Università degli studi di Roma Tre). Bolsista de Produtividade do CNPq (Pq 1D) Professor Titular da Faculdade de Direito da UFMG. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito (UFMG). 2 Mestre e Doutor em Direito (UFMG). Professor Adjunto do Departamento de Direito do Trabalho e Introdução ao Estudo do Direito (UFMG).