1 O consumo contemporâneo no território brasileiro. In: DOWBOR, L.; SILVA, H. E ANTAS JR., R.M. (Orgs), Desafios do Consumo. Petrópolis, Vozes, 2007 (pp. 91 - 114). Ricardo Mendes Antas Jr. 1 A partir dos conceitos de circuitos inferior e superior da economia, consumidor mais-que-perfeito e aceleração contemporânea, todos elaborados por Milton Santos, busca-se analisar algumas características importantes do consumo no período atual, com ênfase no território brasileiro. Uma abordagem geográfica busca sempre partir ou chegar às materialidades que compõem o espaço, para explicar os processos atinentes à sociedade. Esta análise não será diferente e, ainda que o título seja ambicioso, apenas nos avizinharemos do que podemos chamar de lineamentos do consumo contemporâneo no território brasileiro. Posto que é um dado da realidade planetária atual, o consumo capitalista pode ser analisado sob diferentes óticas, mesmo quando nos restringimos ao ângulo de uma disciplina científica, como é o caso desta proposição. Aqui, a partir do consumo de determinados objetos técnicos que compõem a atual materialidade social do espaço geográfico, analisaremos alguns dos aspectos fulcrais do consumo contemporâneo. Para adentrar uma reflexão sobre o consumo num país como o Brasil, partiremos do seguinte fato material: dos 27 estados da federação, 14 têm, no total de seus domicílios, mais televisores do que geladeiras − quatro estados do norte, oito do nordeste, um do sudeste (MG) e o Distrito Federal. Do total de 51,8 milhões de domicílios no Brasil em 2004, 46,7 milhões tinham televisores e 45,3 milhões tinham geladeiras. Não tinham televisores em casa 3,5 milhões de domicílios, e 4,6 milhões não tinham geladeira. É interessante observar como esses dados dividem o país em dois, com uma linha quase contínua entre os estados do centro-sul (denominada região concentrada) e o norte/nordeste mais o norte de Minas Gerais. Poder-se-ia alegar que há famílias com dois ou mais televisores em casa e que, portanto, esses números não revelam a existência de domicílios que ao mesmo tempo têm televisores e não têm geladeiras, a não ser como exceções, pois, como hoje a geladeira é um bem de primeira necessidade, toda família daria prioridade à sua compra, postergando a do televisor. Entretanto, quando se analisam os dados nas faixas de 1 a 3 salários 1 Mestre e doutor em Geografia Humana, integra o grupo de Economia Mundial na PUC-SP desde 1999 e é autor de Território e Regulação: espaço geográfico fonte material e não formal do direito, publicado pela editora Humanitas. A B Unidade da Federação televisão geladeira A - B Brasil 46 733 120 45 230 360 1 502 760 Bahia 2 881 989 2 466 624 415 365 Ceará 1 742 525 1 442 974 299 551 Pernambuco 1 888 919 1 663 284 225 635 Paraíba 826 804 677 624 149 180 Pará 1 300 280 1 163 843 136 437 Minas Gerais 5 011 575 4 899 595 111 980 Alagoas 614 727 519 771 94 956 Maranhão 1 020 983 947 658 73 325 Piauí 551 197 501 563 49 634 Sergipe 475 115 433 968 41 147 Amazonas 625 475 595 985 29 490 Amapá 107 599 94 995 12 604 Distrito Federal 620 392 614 221 6 171 Tocantins 248 899 245 853 3 046 fonte: IBGE, Pnad, 2004