BIB, São Paulo, n. 81, 1º semestre de 2016 (publicada em agosto de 2017), pp. 103-122. 103 Contribuições e desaios do institucionalismo histórico na Ciência Política contemporânea Enzo Lenine Nunes Batista Oliveira Lima 1 Melina Mörschbächer 2 1 Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua pesquisa atual enquadra-se na área de hierarquias de conhecimento, preocupando-se com questões epistemológicas e metodológicas da Ciência Política contemporânea, especialmente teoria institucional, modelagem matemática e teoria normativa. E-mail: leninelima@gmail.com 2 Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Seus interesses de pesquisa enquadram-se na área de hierarquias de conhecimento, especiicamente na História da Ciência Política e em questões de representatividade de gênero na disciplina. E-mail: melina.ufrgs@gmail.com Introdução O desenvolvimento das teorias neoinsti- tucionais ao longo do século XX e início do século XXI parece convergir para um debate epistemológico e metodológico em torno de duas correntes majoritárias: o institucionalis- mo da escolha racional e o institucionalismo histórico. Essas duas tradições respondem por grande parte da produção em Ciência Política, oferecendo diferentes instrumentos de análise dos fenômenos sociais. Embora ambas se ocupem do estudo das instituições e de seu papel na sociedade e compartilhem de alguns conceitos, como o de racionalida- de (THELEN; STEINMO, 1992), existem importantes pontos de atrito, culminando em divergências teóricas de substantiva relevância. A tradição da escolha racional tem res- pondido por uma diversa produção acadêmica em Ciência Política a partir dos anos 1990, como Green e Shapiro (1994) e Norris (1997), enquanto o institucionalismo histórico reco- nhece como suas referências principais heda Skocpol, Kathleen helen, James Mahoney, Paul Pierson, Wolfgang Streeck e Dietrich Rueschemeyer, autores que vêm produzindo consistentemente nessa corrente teórica. A li- teratura dessa corrente, ao longo das últimas duas décadas, vem tentando desenvolver uma teoria da mudança institucional, apontando mecanismos pelos quais as mudanças proce- dem na estrutura (PIERSON, 2000, 2003, 2004) e nos agentes (THELEN; STREECK, 2005; MAHONEY; THELEN, 2010). Não por um acaso, essa dicotomia agente-estrutura tornou-se o calcanhar de Aquiles desse esforço de teorização, indicando que o institucionalis- mo histórico ainda enfrenta o desaio de criar uma nova teoria política positiva. Entretanto, esse não é o único de- safio enfrentado por essa abordagem na Ciência Política. Desde a Revolução Comportamentalista ocorrida na década de 1950, no contexto do desenvolvimento da disciplina nos Estados Unidos, os métodos quantitativos tornaram-se a principal forma de abordar, coletar e sistematizar os fenôme- nos políticos (EASTON, 1985; FARR, 1995; KIRKPATRICK, 1962). Somou-se a essa vi- rada metodológica o advento das abordagens racionais-dedutivas na forma de teoria dos jogos, modelos espaciais e modelos de agentes (COX, 1999), os quais conferiram um viés