(83) 3322.3222 contato@enlacandosexualidades.com.br www.enlacandosexualidades.com.br “RATAZANA DE BUEIRO”, “LIXO HUMANO”: VIOLÊNCIA LINGUÍSTICA DE MOTIVAÇÃO TRANSFÓBICA EM COMENTÁRIOS DE LEITORES/AS DO G1.COM Danillo da Conceição Pereira Silva Universidade Federal da Bahia danillosh@gmail.com RESUMO Filiando-se a perspectivas críticas e interdisciplinares da Nova Pragmática, as quais tomam a linguagem como forma de ação social dotada de potencial performativo, em diálogo com os Estudos de Gênero e Sexualidade, neste trabalho, refletiremos sobre o modo de constituição dos atos de fala transfóbicos realizados em dois comentários online postados por leitores/as no site de notícias G1, entre os meses de junho de 2015 e junho de 2016, em duas matérias jornalísticas relacionadas à performance da atriz e modelo transexual Viviany Beleboni, durante a 19º edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, Brasil. Ao cabo da análise qualitativa e interpretativa dos dados gerados, pudemos observar o modo como a linguagem, a partir da atualização e do reestabelecimento de contextos específicos, pode realizar violência linguística de motivação transfóbica, por meio da produção de sentidos de abjeção para vidas, corpos e identidades trans. Dessa visada, ponderamos que, com vistas ao estabelecimento de uma agenda política, na teoria e na militância, para o enfrentamento da transfobia, a desnaturalização de significados transfóbicos produzidos socidiscursivamente constitui-se como uma pauta de significativa relevância. Palavras-chave: Transfobia, violência linguística, abjeção, comentários online. INTRODUÇÃO Eram por volta das 14h de meados de março deste ano quando, enfim, chegava em casa após uma manhã rotineira de trabalho no campus. Ao ligar o notbook para verificar a correspondência, decidi abrir minha página no Facebook e uma das primeiras notificações que me apareceu no feed de notícias era um vídeo de 1 min. e 20 seg., intitulado “DENÚNCIA! TRAVESTI DANDARA ASSASSINADA A SOCOS E PAULADAS EM FORTALEZA”. Nesse momento, um misto de agonia e revolta tomou conta de mim. Apesar de hesitar, decidi ver o vídeo. Nele, a travesti Dandara Katharine era, conforme prenunciava o título, brutalmente assassinada, à luz do dia, em via pública, no Bairro Ceará, região metropolitana de Fortaleza, Ceará, Brasil. Nenhuma novidade para as estatísticas brasileiras de homicídios de pessoas trans. Nada de novo para o país que, só em 2016, matou mais de 900 pessoas dessa parcela da população, sendo assim líder mundial nesse tipo de atrocidade 1 . Longe de ser um caso isolado de violência fortuita 1 Segundo relatório da Rede Transgender Europe 2016.