O ESTRUTURALISMO CHEGA AO BRASIL: MANUEL SAID ALI E JOAQUIM MATTOSO CÂMARA JR 1 Ricardo Cavaliere UFF Introdução O estruturalismo surge nas primeiras décadas do século XX como uma teoria que interpreta os elementos da cultura humana como unidades que se relacionam entre si em uma estrutura sistêmica. Uma característica que distingue o estruturalismo de outras propostas teóricas está em ter sido utilizado em vários campos das ciências humanas, tais como a antropologia e a sociologia, além, naturalmente, da linguística. Ademais, a concepção estruturalista do mundo e dos fenômenos atinentes à vida humana deu oportunidade para que suas teses também fossem agasalhadas nas artes visuais, de tal sorte que hoje pode-se entender o estruturalismo como um efetivo movimento filosófico que integra a episteme do século XX. Embora as bases do estruturalismo linguístico tenham-se fundado nas primeiras décadas do século, sobretudo com as teses de Ferdinand de Saussure (1857-1913) e os trabalhos subsequentes da Escola de Praga – notadamente Roman Jakobson (1896- 1982) e Nikolai Trubetzkoy (1890-1938) –, o estruturalismo somente chegou ao Brasil nos últimos anos da década de 1930, mais especificamente em 1938, quando Joaquim Mattoso Câmara Júnior (1904-1970) ministra o primeiro curso de linguística geral na universidade brasileira – Universidade do Distrito Federal. Com a publicação do volume Princípios de linguística geral (1941), Mattoso Câmara consolida em órbita bibliográfica a inserção das teses estruturalistas no cenário acadêmico brasileiro, inspirado, sobretudo, em Roman Jakobson e em Leonard Blomfield (1887-1949). A partir desse momento, os estudos linguísticos brasileiros cingem-se em uma bifurcação que põe em caminhos distintos, de um lado, os estudos histórico- comparativos, de base diacrônica e caráter empírico, que vinham predominando na 1 Publicado em Bastos, Neusa Barbosa (org.). Língua portuguesa: história, memória, e interseções lusófonas. São Paulo: EDUC, IP-PUC-SP, 2018, p. 103-120.