1 MILHAUD, LE BŒUF SUR LE TOIT E O PARADIGMA AUDIOTÁTIL Vincenzo Caporaletti Introdução No seu ensaio Brazilian Sources in Milhaud’s Le Boeuf sur le Toit: A Discussion and a Musical Analysis, 1 Manoel Aranha Corrêa do Lago, referindo-se ao contato de Darius Milhaud com a música de compositores populares do Rio de Janeiro e São Paulo, em 1917 e 1918, faz a seguinte observação: É interessante notar o quanto, mesmo para um compositor moderno que havia plenamente assimilado a recente revolução rítmica representada pelo Sacre du printemps [A sagração da primavera], essa “literatura” mostrava-se ao mesmo tempo nova e instigante: este “petit rien si typiquement brésilien”, que ele procurou apreender escutando obsessivamente a música e estudando as partituras, constitui provavelmente sua primeira exposição ao swing afro-americano” – neste caso, sul-americano e brasileiro –, um interesse que culminaria em suas obras inspiradas no jazz (por exemplo La création du monde) e que depois se estenderia às músicas cubana e das Antilhas Francesas. 2 Esse argumento suscita questões importantes, por vários motivos. O termo swing é utilizado por Corrêa do Lago numa acepção distinta da que é mais usual na literatura didática de orientação jazzística, a qual trata o swing como uma “pronúncia” idiomática da subdivisão binária do tactus, - assemelhavel à quiáltera -, o que excluiria músicas tais como o maxixe, nas quais a rítmica se expressa com um caráter mais angular. Entretanto, é notável que ela coincida in toto com algumas novas perspectivas abertas pela pesquisa fenomenológica sobre a “energia psicocinetica”, que no jazz é denominada swing (ou groove na música popular contemporânea), 3 que induzem a 1 Manoel Aranha Corrêa do Lago, “Brazilian Sources in Milhaud’s Le Boeuf sur le Toit: A Discussion and a Musical Analysis”. “Latin American Music Review”, vol. 23, n. 1, 2002, pp. 1-59; ver também a tradução italiana de Vincenzo Caporaletti: “Fonti brasiliane in Le boeuf sur le toit di Darius Milhaud. Una discussione e un’analisi musicale”. “Ring Shout-Rivista di Studi Musicali Afro-Americani” vol. 2, 2003, pp. 11-77. 2 Idem, Fonti Brasiliane, op., cit., p. 71. 3 Ver. Vincenzo Caporaletti, La definizione dello swing. I fondamenti estetici del jazz e delle musiche audiotattili. Teramo: Ideasuoni, 2000; I processi improvvisativi nella musica. Un approccio globale. Lucca: Libreria Musicale Italiana, 2005.