HID 35 (2008) 9-24 HID 35 (2008) A IMPORTâNCIA DA LINHA COSTEIRA NA ESTRUTURAçãO do REIno MEdIEVAL PoRTuguêS. ALguMAS REfLEXõES*. AméliA AguiAr AndrAde (FCSH-UNL/IEM) Em 1143 quando o rei-imperador Afonso VII reconheceu a seu primo, o conde portucalense Afonso Henriques, a possibilidade de utilizar o título de rei de uma unidade política que recebeu o nome de Portugal, o novo reino estava de costas voltadas para o seu litoral, o qual, era ainda muito circunscrito. Na ver- dade, o espaço do Condado Portucalense agora transformado em reino, localizava- se sobretudo entre os rios Minho e Mondego, uma zona onde os núcleos urbanos eram ainda escassos, distribuindo-se os mais importantes pela área mais interior de vales fuviais ou pelas médias altitudes. Raros eram os que se localizavam na linha costeira, uma vez que apenas o burgo de senhorio episcopal do Porto ocu- pava um morro sobranceiro ao rio Douro, na imediata proximidade da sua foz. Por outro lado, os pólos urbanos mais importantes do nóvel poder político ou seja, a 1ª capital condal localizada em Guimarães e, Coimbra, a cidade com a qual o novo rei mostrava ter mais sintonia eram ainda claramente interiores. As zonas litorais caracterizavam-se então por um povoamento escasso, cons- tituído por comunidades que, recorrendo a reduzidos recursos técnicos praticavam as artes da pesca e uma cabotagem incipiente e insegura devido à ainda omnipre- sente pirataria muçulmana. Com efeito, para esta sociedade cristã guerreira e rural, a linha costeira não era um elemento atractivo tanto mais que se associava ao mar, esse espaço de medos e terrores, autêntica fronteira exterior da Cristandade e seu mais ocidental limite. foi preciso esperar quase um século ou seja, pelo fm da conquista portu- guesa, ocorrida em 1249 com a submissão da cidade de Faro no Algarve, para que Portugal fcasse com a sua linha de costa estabilizada, compreendendo um total de 848 quilómetros, distintos todavia, na sua forma, da que hoje apresenta, uma vez que vicissitudes naturais muito complexas, desenvolvidas num tempo longo que chega até aos dias de hoje, lhe foram alterando a confguração, num processo que começou nos dois últimos séculos medievais e que foi encarado com angústia e perplexidade pelas populações que o viveram. * Texto presentado en el Seminario El Atlántico en la estructuración del espacio europeo, orga- nizado por el Instituto de Estudios Medievales y Renacentistas (Universidad de La Laguna, octubre 2008), en el seno de las actividades de la red Atlántica de Estudios Marítimos Medievales.