Capítulo 8 Classes sociais e interseções de desigualdades Portugal e a Europa António Firmino da Costa Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL) Rosário Mauritti Universidade de Évora e Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL) Introdução: intensificação das desigualdades Recentemente, a esfera pública tem vindo a descobrir, algo surpreendida, que afi- nal as desigualdades ainda são um problema grave na sociedade contemporânea. Mais ainda, que se está a verificar atualmente uma intensificação das desigualda- des sociais. Este novo agravamento das desigualdades traz consigo um cortejo de impli- cações muito negativas, na vida das pessoas e na organização das sociedades. Vári- as dessas implicações vão-se tornando cada vez mais reconhecidas: concentração desmedida e acelerada de riqueza, rendimento e poder; desregulação e precariza- ção do trabalho; recrudescimento de polarizações sociais e clivagens acentuadas; bloqueio e insegurança das gerações jovens, nomeadamente quanto a emprego, condições de vida e projetos de futuro; interrupção da mobilidade social ascenden- te, que até há pouco era entendida implicitamente como horizonte socialmente es- perado; alastramento da experiência ou ameaça de mobilidade social descendente; recessão, estagnação e dificuldade de crescimento económico; derivas autoritárias que vão desgastando as liberdades e esvaziando a democracia. Algumas destas di- nâmicas figuram como causas ou como consequências do agravamento atual das desigualdades. Na maior parte dos casos encadeiam-se entre si, em ciclos perver- sos geradores de acréscimo inigualitário. A recente surpresa quanto ao agravamento atual das desigualdades tem ir- rompido não só na esfera pública (meios de comunicação, redes sociais, agentes políticos, comentadores públicos) mas tem também abalado alguns cientistas soci- ais (de várias áreas disciplinares) que, nas últimas décadas, tinham aderido à noção de que as desigualdades sociais se tinham esbatido nas sociedades da modernida- de avançada ou, em todo o caso, que já não seriam problema social relevante. Alguns outros salientavam — aliás com toda a pertinência — que nas so- ciedades contemporâneas se verificavam desigualdades socioculturais relevantes e preocupantes, da ordem da discriminação categorial e da discriminação de reconhecimento identitário (discriminações de género, idade, étnico-raciais, estilo de vida, orientação sexual, etc.). Contudo, entendiam que as desigualdades de 109