Cadernos CIMEAC – v. 8, n. 2, 2018. ISSN 2178-9770 UFTM | Uberaba – MG, Brasil ~ 6 ~ M ICHEL E SPAGNE | A LEXANDRE F ONTAINE DOI: 10.18554/cimeac.v8i2.3263 VIAJANDO COM O CONCEITO DE TRANSFERÊNCIAS CULTURAIS E NTREVISTA COM M ICHEL E SPAGNE MICHEL ESPAGNE, historiador francês da cultura, criou o conceito de transferências culturais com Michael Werner nos anos 1980. Espagne é diretor do labex TransferS desde 2011 e conta seu sentimento sobre o passado, o presente e o futuro daquele conceito em uma entrevista que ocorreu em 9 de janeiro de 2018 na École normale supérieure de la rue d’Ulm em Paris (França). 1 A entrevista foi realizada por Alexandre Fontaine, pesquisador vinculado ao Institut für Bildungswissenschaft da Universidade de Viena (Áustria) e dedicado ao estudo das transferências culturais e da circulação de saberes no campo educacional. Contato: fontaine.transferts@gmail.com * * * Alexandre Fontaine: Se não me engano, o conceito de transferência cultural foi elaborado originalmente a partir da figura de Heinrich Heine, não? Michel Espagne: De fato, Heine tenta implantar na França a filosofia clássica alemã (hegeliana). Em seu Zur Geschichte der Religion und Philosophie in Deutschland (Para a história da religião e da filosofia na Alemanha), ele recorreu a construções ideológicas e a vocabulários – como o saint-simonismo – que são eles próprios emprestados da história intelectual francesa. Todo o enquadramento das transferências culturais se encontra neste exemplo. Além disso, o próprio saint-simonismo, sob sua forma nos anos 1830 com Père Enfantin, é o resultado de uma hibridação entre as tradições francesas e, em seguida, as lições que aqueles indivíduos tiveram com Hegel em Berlim. Percebemos que há a construção de um conjunto de passagens entre um país e outro e, paralelamente, reinterpretações, já que não há passagem sem reinterpretações. De maneira geral, uma vez que um conceito ou uma prática circula de um país a outro, sentimos a necessidade de realizar essa importação para a obtenção de algo de fora de seu próprio contexto. De partida, isso necessariamente transforma o conteúdo intelectual daquilo que importamos, às vezes até profundamente, até modificar sua natureza mais profunda. Desse modo, assim 1 Algumas passagens desta entrevista estão publicadas em francês no número da revista de história suíça Traverse, 1/2019, na coletânea La Suisse, une histoire de transferts culturels.