99 Realismo e irracionalismo nas obras de Liev Tolstói: contradições estéticas, filosóficas e políticas HENRIQUE WELLEN * Resumo: Liev Nikolayevich Tolstói ou, como ficou mais conhecido a partir de algumas traduções brasileiras, Leão Tolstoi, foi, sem dúvidas, um dos maiores escritores da literatura mundial. Mas, além de detentor de um currículo literário impressionante, o autor de Guerra e Paz também se tornou bastante conhecido pelos seus polêmicos posicionamentos, com os quais tanto conquistou admiradores e seguidores, como também perseguidores e detratores. Dentro do complexo estético, se é verdade que Tolstói conseguiu figurar parte dos seus personagens com uma grande riqueza subjetiva, apresentando-os a partir das determinações sociais que os envolvem e os consubstanciam; também é fato que, em outros momentos (em quantidade literária bem inferior), relevam-se concepções e axiomas mistificadores e, até mesmo, preconceituosos. Na grande maioria dos seus livros, Tolstói funda sua figuração numa concepção que mistura, de um lado, preceitos de uma ontologia materialista e, de outro, elementos de pecha religiosa e mistificadora, tal qual a mistura de uma verdadeira e de uma falsa ontologia. E, quando na parte final da sua vida, em que o escritor esteve envolvido por um pensamento religioso resignado e, de certa forma, niilista, dentre os valores profetizados por Tolstói, um parece ter tido maior relevo: a misoginia. O objetivo desse artigo foi apresentar e analisar, de forma breve, algumas indicações acerca dessa relação nas obras do escritor russo. A partir de exemplos extraídos de figurações artísticas desse autor, pôde-se medir o grau de aproximação ou distanciamento com uma concepção de mundo humanista e histórica, que foi consubstanciada por variadas contradições estéticas, filosóficas e políticas. Palavras-chave: arte; filosofia; política; Tolstói; gênero. Abstract: Liev Nikolayevich Tolstoy, or, as he was better known from some Brazilian translations, Leo Tolstoy, was undoubtedly one of the greatest writers of world literature. But, beyond his impressive literary curriculum, the author of War and Peace also became well known for his controversial ideas, in which he won admirers and followers and, also, persecutors and detractors. Within the aesthetic complex, if it is true that Tolstoy was able to figure a part of his characters with a great subjective wealth, presenting them from the social determinations that involve them and consubstantiate them; it is also a fact that he, at other times, (in a much lower literary quantity), he had mystifying and prejudiced conceptions. In the great majority of his books, Tolstoy bases his figuration on a conception that mixes, on the one hand, precepts of a materialist ontology and, on the other, elements of religious and mystification, just like a mixture of true and false ontologies. And when, in the later part of his life, in which the writer was surrounded by a resigned and, in a certain way, nihilistic religious thought, among the values prophesied by Tolstoy, one seems to have been more prominent: misogyny. The aim of this article was to present and analyze, briefly, some indications about this relationship in the works of the Russian writer. From examples extracted from the artistic figurations of this author, it could measure the degree of approximation or distance with a conception of the humanist and historical world, which was embodied by various aesthetic, philosophical and political contradictions. Key words: art; philosophy; politics; Tolstoy; gender. * HENRIQUE WELLEN é professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.