Pinto de Moura C et al Trissomia 21 - Perspectiva Otorrinolaringológica
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REVISÃO
ARQUIVOS DE MEDICINA, 18(?): ???-??? Recepção: 12.03.04 e Aprovação: 23.04.04
Trissomia 21 - Perspectiva Otorrinolaringológica
Carla Pinto de Moura*†; Helena Silveira*; David Andrade‡; Miguel Palha§; Manuel Pais Clemente*
* Serviço de Otorrinolaringologia, Hospital de São João, Faculdade de Medicina do Porto; †Serviço de Genética,
Hospital de São João, Faculdade de Medicina do Porto; ‡ Odontopediatria, Faculdade de Medicina Dentária do
Porto; § Pediatra Desenvolvimentalista da Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21
ISSN 0871-3413 • ©ArquiMed, 2004
Introdução: A trissomia 21 é a cromossomopatia mais frequente, tendo-se registado nos últimos anos um aumento da sobrevida
dos indivíduos afectados. Estes doentes apresentam patologia do foro otorrinolaringológico muito específica, que exige rastreio e
intervenção precoces. Objectivos: Neste trabalho pretende-se rever a patologia otorrinolaringológico característica desta síndrome
e avaliar os achados clínicos otorrinolaringológico apresentados por um grupo de crianças com trissomia 21, comparando-se a sua
orientação clínica com as recomendações de diferentes autores e entidades oficiais. Métodos: Foram avaliadas, no âmbito
otorrinolaringológico, 106 crianças com trissomia 21, entre os 3 e os 14 anos de idade, de todas as regiões do País. Resultados:
35,8% destas crianças não tinham sido observadas previamente por otorrinolaringológico; no grupo de crianças já avaliadas, mais
de metade não tinha efectuado rastreio audiológico. Os sintomas obstrutivos das vias aéreas superiores foram a queixa mais
frequentemente apresentada pelos pais. A otite média com efusão e a rinossinusite crónica constituíram os achados mais frequentes
do exame físico. Conclusão: A maioria das crianças não foi avaliada por otorrinolaringológico ou foi-o tardiamente. A maioria dos
pais não estão alertados para a patologia mais característica deste grupo, nomeadamente a hipoacusia e a apneia do sono. É
fundamental informar todos os profissionais de saúde que lidam com este grupo para orientarem estas crianças para o rastreio
audiológico precoce e para a vigilância da patologia do foro otorrinolaringológico, de forma a minimizar patologia que possa acentuar
os défices cognitivos e de desenvolvimento já existentes.
Palavras-chave: Trissomia 21, otorrinolaringologia, idade pediátrica.
INTRODUÇÃO
A Trissomia 21 (T21) é a cromossomopatia mais frequente,
com uma frequência em caucasianos de cerca de 1:770 recém-
nascidos e uma prevalência de 1:3300 a 1:2000 e é resultante
da presença adicional do fragmento da banda 21q22 (1).
Clinicamente caracteriza-se por défice cognitivo, hipotonia,
dismorfia crânio-facial, com braquicefalia, malformação dos
pavilhões auriculares, fendas palpebrais obliquas, epicanto,
base nasal achatada, macroglossia relativa, cardiopatia
congénita e membros curtos com prega palmar transversal
(1,2).
A esperança de vida dos doentes com trissomia 21 tem
aumentado significativamente nas últimas décadas (para além
dos 50 anos) devido à evolução técnica da medicina e à
melhoria dos cuidados de saúde materno-infantis (3,4). Este
facto tem vindo a dar particular relevância à qualidade de vida
deste grupo, modificando a atitude da comunidade médico-
científica relativamente às necessidades de apoio interventivo
e terapêutico, valorizando a actuação precoce, de forma a
minimizar as alterações que podem agravar o atraso de
desenvolvimento existente. Tem ainda diversas implicações
práticas na vigilância clínica destes indivíduos, incluindo o
conhecimento da evolução dos sintomas ao longo do tempo.
Os doentes com trissomia 21 têm uma prevalência maior de
patologia específica do foro otorrinolaringológico, nomeada-
mente rinossinusites de repetição, obstrução nasal crónica e
apneia do sono, consequência da hipotonia e das malformações
crânio-faciais que apresentam, como a hipoplasia do andar
médio da face (5,6). Estas alterações, juntamente com o facto
de terem as trompas de Eustáquio mais curtas e patentes,
predispõem ao aparecimento de otite média com efusão crónica,
causa de hipoacusia de transmissão, que interfere com a
aquisição da linguagem (7). Este factor é referido como uma
das principais dificuldades apresentadas por este grupo de
crianças (5,6,8-10). O diagnóstico da patologia otológica é
muitas vezes dificultado pela presença característica de canais
auditivos externos estenosados, com existência habitual de
cerúmen empactado que, sendo uma causa adicional de surdez
de transmissão, nem sempre é fácil de remover, especialmente
em crianças pouco colaborantes (8,11).
Estão ainda descritas, embora sendo mais raras, alterações
estruturais, congénitas ou adquiridas (secundárias a processos
inflamatórios crónicos) no ouvido médio dos portadores de
trissomia 21, como anomalias dos ossículos, que podem ser
responsáveis por hipoacusias de transmissão e que requerem
atitudes terapêuticas distintas, assim como uma incidência
aumentada de hipoacusia sensorioneural congénita (8,12). É
também importante referir que a partir da segunda década de
vida, estas crianças evidenciam um padrão auditivo tipo
presbiacusia, de instalação progressiva, que implica, com
alguma frequência, a necessidade de amplificação com próteses
auditivas (8,12,13).
A apneia do sono tem uma frequência superior a 50% nos
doentes com trissomia 21 e está, de uma forma geral, sub-
diagnosticada (14,15). A patofisiologia das componentes centrais
e periféricos da apneia do sono neste grupo de crianças é
sobreponível à da população geral. No entanto, as crianças
com trissomia 21 têm mais factores predisponentes
nomeadamente a hipoplasia do andar médio da face e da
mandíbula, a macroglossia relativa com queda posterior da
língua, as pequenas dimensões da faringe, a inserção superficial