1 Um ponto cego no pensamento político? Teoria Crítica e a democratização da intimidade Felipe Gonçalves Silva 1 Em sua obra A transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas, Anthony Giddens escrevia em 1992 que uma das maiores lacunas do pensamento democrático àquele momento encontrava-se em sua incapacidade de incorporar devidamente as transformações do universo íntimo. O próprio autor dedica apenas o último capítulo do referido trabalho a um tratamento mais direto sobre a “intimidade como democracia”, desculpando-se ali por ser obrigado a apenas traduzir certas preocupações gerais da reflexão democrática ao campo da intimidade, dada a inexistência de reflexões mais específicas sobre o assunto. E procurando as causas dessa lacuna, Giddens nos indica a convicção bastante difundida, mesmo nos meios mais esclarecidos, de que a intimidade constitui “um tema de irrelevância pública – uma questão absorvente, mas essencialmente privada.” (Giddens, 2004) Apesar de sua crescente tematização política na maior parte das democracias contemporâneas, a reflexão democrática não parece ter superado plenamente esta lacuna apontada já há duas décadas. Em comparação às demais ciências sociais, o pensamento democrático tem se mostrado bastante cauteloso ao falar do universo íntimo: um olhar direto sobre ele é visto não apenas como algo desinteressante do ponto de vista dos valores democráticos, mas como sua violação em potencial. E por isso, ele nos é apresentado como um objeto a ser não propriamente investigado, mas protegido, sendo apontados os instrumentos de privacidade como seu mais adequado recurso. Com isso, a privacidade não apenas subordina o universo íntimo na linha de exposição, como também determina a amplitude de seus espaços sociais: as relações íntimas tendem a ser naturalizadas como experiências privadas, como assuntos de interesse estritamente pessoal e, em seu extremo, como temas por princípio afastados do escrutínio público, da agenda democrática, dos discursos sobre a justiça. Há de se dizer que na esteira da ação política, a reflexão democrática teve já de incorporar a contestação dos contornos da privacidade em outras dimensões da vida social: as esferas do trabalho, da religião e da cultura foram despojadas de seus atributos estritamente privatizantes ao serem 1 Agradeço a Sérgio Costa não apenas pela conversa inicial que deu origem ao presente texto, como pelo apoio e incentivo de sempre.