1 Neoconservadorismo e modernidade inacabada Antonio Ianni Segatto * Felipe Gonçalves Silva ** Em 1980, Habermas recebia o Prêmio Adorno, conferido pela cidade de Frankfurt a destacados intelectuais, compositores e cineastas. O título da conferência que proferiu na ocasião, tão sugestivo quanto polêmico, era “Modernidade – um projeto inacabado”. Aproveitando o ensejo da Bienal de Veneza, que acolhera a “nova arquitetura”, Habermas polemizava com o movimento pós-moderno, ainda em curso de consolidação, e apontava relações dessa vanguarda estética com um certo pensamento neoconservador. Considerada sobre o pano de fundo de sua obra posterior, não é exagero dizer que a conferência tinha um caráter programático: contra as tendências de negação da modernidade, Habermas defendia a persecução de seus potenciais ainda não esgotados. As obras seguintes do filósofo são, em grande medida, um enfrentamento teórico e político dos impasses que ele já diagnosticava naquela conferência e um desdobramento das saídas que ele ainda apontava de maneira tímida. A nova obscuridade – Pequenos escritos políticos V foi publicado na Alemanha em 1985, refletindo problemas e tensões de uma década crucial para a sobrevivência e maturação do projeto democrático, tanto na Alemanha quanto fora dela. Já em uma primeira passada de olhos, fica patente a natureza imediatamente política da maior parte dos assuntos nele tratados, tais como a crise do Estado social, a continuada avaliação do passado totalitário, as políticas de rearmamento, a desobediência civil e a repressão policial contra manifestações e protestos públicos. Entretanto, o significado político dos textos aqui reunidos não se deixa abarcar simplesmente por referência a seu recorte temático. Em meio a uma obra como a de Habermas, sempre atenta a questões prementes da política cotidiana, a peculiaridade de escritos designados como “políticos” tem de ser explicada por algo além de sua referência a temas práticos da ordem do dia. * Professor do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araraquara. ** Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP).