cadernos de campo, São Paulo, n. 21, p. 1-360, 2012 ,JRU .RS\WRII XP elder singular WILSON TRAJANO FILHO Por mais efervescentes que sejam as condi- ções de produção científica na vida acadêmica brasileira, uma coisa é certa: vivemos uma épo- ca em que há muita pressão (e muito incentivo, é verdade) para publicarmos os resultados de nossas pesquisas – para o bem ou para o mal. Nesse contexto intelectual, a publicação da tra- dução de Anscestors as elders deve ser motivo para comemoração. Primeiramente, pela excelência do texto, cujo polêmico argumento parece ter sobrevivido bem à crítica e ao tempo. Mas deve ser celebrada também por ser a primeira tradu- ção para o português de um autor verdadeira- mente ímpar. Na antropologia dos últimos 60 anos, é difícil encontrar um autor que seja tão influente quanto Kopytoff com um currículo de publicações tão esguio. Nosso “elder” publi- cou uma monografia em 1955, que não deixou maiores impactos. Depois disto, publicou duas coletâneas de artigos, menos de 29 capítulos de livros, 14 artigos e 29 resenhas e comunicações breves (ver seu currículo em http://www.sas. upenn.edu/~kopytoff/). Para uma vida acadê- mica tão longa, esses números, em si, não são de fazer inveja. Não é nada incomum no meio acadêmico tão competitivo como o de hoje, tão balizado por avaliações inclementes, que jovens pesquisadores com 10 anos ou menos de dou- torado tenham currículos muito mais exube- rantes quantitativamente do que o do nosso elder aqui celebrado. Mas tamanho não é documento, diz a sa- bedoria popular. E quantidade não se desdo- bra obrigatoriamente em prestígio e influência. Nesses termos, Kopytoff é simplesmente exem- plar. Deixou suas marcas em quase tudo que publicou, tornando-se referência obrigatória em cada assunto que trabalhou. Antes de te- cer alguns comentários sobre a tradução que se segue, faço uma breve revisão da importância de suas obras para a antropologia da África e para a teoria antropológica em geral porque Kopytoff fez do seu imenso conhecimento etnográfico uma ferramenta para o mais fino pensamento teórico e analítico em antropolo- gia. Penso naquele tipo de teoria que nunca se afasta muito do chão etnográfico; aquele tipo que não se ilude com as esferas perfeitas ao pi- sar num chão de arcos partidos. Sua contribuição ao entendimento da es- cravidão em África, publicada na longa in- trodução que escreveu com Susanne Miers (Kopytoff & Miers, 1977), propõe uma inter- pretação balizada por valores culturais prevale- centes num ecúmeno pan-africano, como o dos direitos-em-pessoas ancorados na ideologia do pertencimento aos grupos de parentesco ou da dependência moral. Segundo essa perspectiva, a escravidão africana seria um tipo de transação cuja matéria prima são os direitos que grupos corporados como as linhagens detêm sobre os seus membros. Esse tipo de abordagem ilumi- na com cores inéditas um amplo espectro de relações de subordinação que vão muito além da de escravidão propriamente dita, como a adoção, a dependência e as várias formas de pertencimento. Além disto, sugere que, como transação, a escravidão não é um estado fixo, mas um processo que implica incorporação e mobilidade. Este modo de olhar para o fenômeno da escravidão africana como processo terá impli-