A ciência em O Avesso da Psicanálise Vitor Hugo Couto Triska 1 A partir de discussões realizadas no Cartelão, proponho algumas notas acerca da relação de Lacan com a ciência no seminário O avesso da psicanálise, especialmente a partir das lições VII e XI. A noção de ciência que Lacan adota e à qual se refere não coincide com as ciências a partir das quais a psicanálise é criticada. Refiro-me às diversas acusações de impostura ou obscurantismo dirigidas à psicanálise em nome dos mais diversos cientificismos de autointitulados arautos da ciência. Segundo estes, a psicanálise estaria desalinhada de padrões científicos confiáveis. Não retomo esta questão para realizar uma contracrítica a nossos acusadores, pois isso tão somente contribuiria a um embate já saturado e deletério que, de forma inédita, opõe psicanálise e ciência. Busco tão somente retomar a posição científica de Lacan e apontar pontos de encontro entre sua psicanálise e uma ciência. Na lição VII, de generosa referência a Lévi-Strauss, um nome fica elidido: Alexandre Koyré. O influente epistemológo é quem apresenta literalmente, em um jantar o psicanalista francês ao etnólogo belga. A elisão desse nome não impede que reconheçamos traços fortes de sua concepção de ciência em O avesso da psicanálise. Para Koyré (2011), a boa ciência é feita a priori e deve estar sustentada pelo pensamento matemático, não em uma empiria ingênua que supõe um real que se dá a conhecer diretamente. Segundo o autor, ao contrário de alguns historiadores da ciência 2 , Galileu jamais teria soltado as esferas do topo da torre de Pisa para provar coisa alguma, pois o florentino já havia obtido, a priori, a prova matemática da necessidade de que as esferas de diferentes massas tocassem o chão ao mesmo tempo. A realização do famoso experimento que talvez nunca tenha ocorrido só poderia dar errado, pois os materiais utilizados e as condições eram imperfeitas. A conclusão do epistemólogo é emblemática e soará bastante familiar aos lacanianos: só a matemática pode abordar o real objetivamente. O advento da ciência moderna implica, portanto, a substituição da realidade empírica por modelos matemáticos ou ainda da intuição imaginária pela 1 Psicanalista, Pós-doutorando no PPG em Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS), Mestre e Doutor em Psicologia Social e Institucional (UFRGS) e Especialista em Atendimento Clínico ênfase em Psicanálise (Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS). Email: vhtriska@gmail.com. 2 Ver Teresi, 2008.