1 Aplicar Barthes: desenvoltura e procedimento em Gonçalo M. Tavares Madalena Vaz Pinto Profa. Adjunta UERJ Um acontecimento literário tem lugar em Portugal em maio de 1974. Em um ano já então pleno de acontecimentos, atravessado por ventos auspiciosos, muitos deles ainda em busca de forma e direcionamento, publica-se O prazer do texto, de Roland Barthes. Não pode ser por acaso, nada é por acaso, coincidência pode ser palavra pobre, fiquemos com sincronicidade. É mais sutil, mais corpo que ideia, exige olhar atento, separar o joio do trigo, parar. Apenas um ano após a sua publicação em França, este texto chega à cultura portuguesa com tradução de Margarida Barahona e prefácio de Eduardo Prado Coelho. “Aplicar Barthes” é o título do prefácio, e cabe reparar na importância deste texto que recusa ser uma introdução e se dá ao direito de constituir-se, também ele, como intervenção. Prado Coelho diz que o texto de Barthes intervém na prática pedagógica e política e trair esse texto seria “escrever sobre ele em 14 de Maio de 1974, em Portugal, quinze dias após o 25 de Abril, como se nada tivesse acontecido, como se o acontecimento histórico não afetasse até à raiz nosso gesto de escrever” (COELHO, 1974, p. 12). Com esta afirmação, Eduardo Prado Coelho insere a publicação do texto barthesiano no âmbito do movimento revolucionário, fazendo-o reverberar de modo a ampliar e problematizar seus efeitos. Não resta dúvida: o fascismo foi um fato de linguagem que é preciso analisar nas suas várias manifestações: a linguagem controlada, a linguagem arrancada, a linguagem da censura, a linguagem mansa que encobria as práticas criminosas do regime. Dito isto, é preciso alertar o leitor português para os efeitos pouco desejáveis que O prazer do texto pode provocar: por um lado, entender o texto como um conjunto de devaneios a partir dos quais Barthes estaria propondo uma roupagem nova para ideias já conhecidas; por outro, ficar fascinado pela qualidade literária do texto, sem se dar conta da sua dimensão política. E O prazer do texto, diz Prado Coelho, “é muito provavelmente uma das obras contemporâneas mais importantes no campo da teoria literária” (COELHO, 1974, p. 10). Por quê? Porque o texto de Barthes balança e abala os campos de saber