9 UMA HIPÓTESE EXPLICATIVA DO CONTATO ENTRE O PORTUGUÊS E AS LÍNGUAS AFRICANAS UMA HIPÓTESE EXPLICATIVA DO CONTATO ENTRE O PORTUGUÊS E AS LÍNGUAS AFRICANAS Margarida Maria Taddoni Petter Universidade de São Paulo Introdução No Brasil, a maior parte dos estudos sobre a caracterização do chamado “Português Brasileiro” desenvolve-se dentro de uma metodologia contrastiva, em que a identidade do português brasileiro (PB) é evidenciada em comparação com o português europeu (PE). Alguns raros estudos de sociolingüística observam a semelhança da morfossintaxe do PB e das línguas crioulas de base portuguesa. Evidências lingüísticas relevantes apóiam as análises nas duas direções. É inegável, como demonstram os trabalhos publicados, que o PB difere nos níveis fonético-fonológico e sintático, sobretudo, do PE; por outro lado são notáveis as semelhanças encontradas na concordância de gênero e número do sintagma nominal dos crioulos de Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e a variação identificada nesses mesmos contextos em variedades não-padrão do PB. Essas análises, embora sejam pertinentes, são parciais, pois deixam de situar o PB num conjunto maior – o dos países de fala portuguesa – onde se encontram outras variedades de português, não crioulas, faladas na África (Angola e Moçambique) e na Ásia (Macau, Goa e Timor Leste). Uma análise exaustiva sobre a identidade do PB deveria contemplar esse conjunto. Esta não é uma tarefa fácil, mas deve ser iniciada. Trabalhos feitos em Angola e Moçambique sobre o português local também seguem a metodologia de comparar a variedade sob análise ao português europeu: des- tacam-se as particularidades, os desvios, os “erros”, sempre considerando o PE como a forma padrão (cf. sobre Angola : Chavagne 2005 e Inverno 2005 ; sobre Moçam- bique: Laban 1999, Gonçalves 1997 e Gonçalves 2003). Esses estudos distinguem-se dos nossos, no entanto, pelo fato de mencionarem, mesmo que em alguns momentos da análise, o português brasileiro. Pretende-se, aqui, focalizar as formas de português faladas na África, na área não crioula, chamando atenção para o fato de que as diferentes situações de contato, em épo- cas diversas, mas envolvendo o português e um conjunto de línguas muito próximas, as do grupo banto, produziram alguns resultados semelhantes nos níveis fonológico, lexical e morfossintático, que nos permitem defender a existência de um continuum afro-brasileiro de português. Mesmo considerando que não existam entidades homogêneas identificáveis como “português africano”, “português moçambicano”, “português angolano” ou “portu- guês brasileiro”, a história do contato e os aspectos lingüísticos comuns a essas variedades autorizam-nos a levantar a hipótese desse continuum.