SOFIA (ISSN 2317-2339), VITÓRIA (ES), V.7, N.2, P. 226-239, JUL./DEZ. 2018 O QUE PODE A FILOSOFIA DA MÚSICA? FÍSICA E METAFÍSICA DA MÚSICA EM SCHOPENHAUER WHAT CAN PHILOSOPHY OF MUSIC DO? PHYSICS AND METAPHYSICS OF MUSIC IN SCHOPENHAUER DANIEL PUCCIARELLI 1 Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — Brasil arelli@gmail.com RESUMO: O artigo investiga as potencialidades e limites do discurso filosófico sobre música a partir do pensamento de Arthur Schopenhauer. Em particular, pretende-se plausibilizar a tese de que a filosofia da música de Schopenhauer, por operar de maneira autoconsciente no terreno da analogia e por se compreender como uma metafísica robusta da música, é um espaço privilegiado para se estudar a natureza mesma da estética filosófica. Para tal, o artigo oferece uma reconstrução panorâmica tanto das principais linhas de força do seu sistema quanto de sua estética, para enfim interrogar a fundamentação de seus procedimentos de elaboração conceitual a partir de desdobramentos da estética e teoria musicais do século XX. PALAVRAS-CHAVE: Filosofia da música. Metafísica da música. Música. Linguagem. Analogia ABSTRACT: The article investigates the potentialities and limits of the philosophical discourse on music based on the thought of Arthur Schopenhauer. More specifically, we intend to render plausible the thesis that Schopenhauer's philosophy of music, by operating in a self-conscious way in the field of analogy and by understanding itself as a robust metaphysics of music, is a privileged space for the study of the very nature of aesthetics of music. For doing so, the article offers a panoramic reconstruction of both the main lines of his system and his aesthetics, in order to interrogate the ground of its procedures of conceptual elaboration basing on elements of the aesthetics and musical theory of the 20 th century. KEYWORDS: Philosophy of music. Metaphysics of music. Music. Language. Analogy INTRODUÇÃO O leitor dos textos célebres da história da estética está habituado a um expediente de leitura curiosamente oblíquo: para compreender o tratamento que determinado autor confere a certo construto artístico ou procedimento técnico- formal em seu sistema das artes, é preciso com frequência recuar para as suas decisões teóricas mais gerais, que, via de regra, são externas ou mesmo anteriores à estética propriamente dita. Por exemplo: para compreender o célebre tratamento 1 Pesquisador de Pós-Doutorado (PNPD-Capes) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). DOSSIÊ SCHOPENHAUER