Universidade Taras Shevchenko, 27 de março de 2019 Uma língua feita de mundos e de coisas Belas. A Torre de Babel como possibilidade. 1 Uma língua feita de mundos e de coisas Belas. A Torre de Babel como possibilidade. José Vieira Embaixada de Portugal em Kiev Centro de Língua Portuguesa (CLP) Instituto Camões IP No livro fundador da civilização ocidental, o narrador bíblico diz-nos que as “trevas cobriam a face do abismo” (Gn, 1: 2), até ao exato momento em que Deus usa da palavra o tal Verbo que existe desde o início, como aparece no Evangelho de João, que mais não é do que o grego Logos (palavra ou razão). A partir do momento em que Deus rasga o silêncio com o “Faça-se luz”, tudo é construído. Assim, do nada se fez todo o Universo e toda a existência. O fiat lux é, então, um ato criador tornado realidade através da palavra e da linguagem. Desde os primórdios da humanidade que as culturas, as línguas e as palavras têm assumido um papel preponderante e delineador daquilo que é o nosso código genético linguístico, literário e cultural. Não por acaso, no início do mundo, e voltando ao livro do Génesis, conta-nos o mesmo narrador que a humanidade inteira falava a mesma língua. E por falar a mesma língua, quis construir a mais alta torre de que há memória, de modo a marcar a sua presença por toda a eternidade. E assim nasceu o mito da Torre de Babel (Gn, 11), uma outra forma de dizer que a humanidade não poderá falar uma só língua. Mas será mesmo assim, de facto? A palavra e a linguagem são o veículo através do qual o Homem foi construindo a sua história e a própria narrativa do mundo. Quando, pela primeira vez, tomámos consciência da diferença linguística que separa sociedades, culturas e mundividências, a humanidade sentiu a maior e talvez a mais inexpugnável das muralhas, uma vez que, como afirmou o filósofo alemão Ludwig Wittengstein, no seu Tratado Lógico-Filosófico, de 1921, e cito: “os limites da linguagem são os limites do meu mundo”. Ora, se a língua é o limite do nosso conhecimento, como poderemos entender uma língua que desconhecemos? Como reagir perante um estrangeiro que desconhece o nosso alfabeto? Como proceder face a uma situação em que nos encontramos num país diferente, com uma língua totalmente distinta da nossa? Talvez deva formular a questão a partir de outro ponto. Para isso, recupero as palavras de Octavio Paz, em Lectura y Contemplación, e cito, pedindo perdão pelo meu castelhano macarrónico. Imaginemos como, em algum momento,