CADERNOS AA Cadernos de Arte e Antropologia, Vol. 8, n° 1/2019, pag. 77-90 A Roupa Expressa a Identidade: Moda enquanto Tecnologia de Gênero na Experiência Transgênero Isabel Wittmann Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil 1 Esse artigo visa explorar a noção de moda enquanto tecnologia de gênero: capaz, por vias discursivas ou práticas, de criar o próprio gênero. Por meio de relatos que partem de experiência transgênero discuto a forma como as roupas codificam sig- nificados, que passam pela própria expressão de feminilidades e masculinidades. Questiono, por outro lado, a própria noção do que seria uma moda feminina ou uma masculina, já que elas são agenciadas conforme a necessidade de expressão das subjetividades, negociando corpos e identidades. Apresento os conflitos re- velados entre essas subjetividades e as normativas que envolvem o vestuário, especialmente quando se trata de família e escola, dois agentes de normalização relevantes. Por fim, destaco que as narrativas, em sua pluralidade, não devem ser lidas como uma expressão monolítica da experiência transgênero, mas como uma mostra da relação entre performatividade e moda. Palavras-chave: transgeneridade, tecnologia de gênero, moda, performatividade A etnografia aqui apresentada nasceu do desejo de me inserir no campo de estudos de gênero, ao mesmo tempo em que se delineou por meio do interesse pela moda como objeto de estudo. Sua gênese partiu do interesse em pesquisar a relação entre a performatividade de gênero e a moda, enquanto ferramenta utilizada para expressá-la. O objetivo era entender como pessoas com identidades transgênero, ou seja, que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer, se relacionavam com a moda. O trabalho de campo foi realizado entre janeiro de 2013 e fevereiro de 2016. 2 1 Contato da autora: iwittmann@gmail.com. 2 Artigo baseado na dissertação Corpo, Gênero e Identidade: experiências transgênero na cidade de Manaus, desenvolvida pela autora, defendida em 2016 sob orientação da Profª Dra. Márcia Regina Calderipe Farias Rufino e co-orientação da Profª Dra. Fátima Weiss de Jesus, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS-UFAM), com recursos de bolsa de pesquisa provida pela FAPEAM.