Victor M. Rios. Human targets: schools, police, and the criminalization of Latino youth. Chicago, Univer- sity of Chicago Press, 2017. 211 pp. Herbert Rodrigues Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-4987-1486 Ao estilo de Pierre Bourdieu, em Esboço de auto-aná- lise (2005), Victor Rios inicia os primeiros parágra- fos do livro Human targets: schools, police, and the criminalization of Latino youth (2017) [“Alvos hu- manos: escolas, polícia e a criminalização de jovens latinos”, em tradução livre] recuperando da memória traços biográfcos para tratar do entrecruzamento de confgurações institucionais pelas quais passou du- rante a adolescência nas ruas de Oakland, uma das cidades mais violentas da Califórnia. Uma das principais semelhanças entre o traba- lho de Bourdieu e o livro de Rios reside nas inquie- tações de vidas sociologicamente inviáveis: o pri- meiro, flho de funcionário do serviço de correio de um vilarejo camponês da França, decidiu estudar f- losofa para ser professor de ensino médio e chegou ao Collège de France; o segundo, flho de imigran- tes mexicanos, não conheceu o pai, envolveu-se com o tráfco de drogas, com gangues de rua, acessou o sistema acadêmico numa das mais prestigiadas uni- versidades dos Estados Unidos e se tornou professor titular de sociologia na Universidade da Califórnia, Santa Barbara. Em suas obras, ambos tratam, pari passu, dos constrangimentos estruturais enfrenta- dos, dos deslocamentos institucionais sofridos, dos vários cenários sociais em que se viram inseridos e das múltiplas identidades adquiridas ao longo de suas respectivas trajetórias pessoais e profssionais. Em Human targets, Victor Rios se questiona acerca de quais são as condições materiais e simbó- licas necessárias para os deslocamentos nos espaços sociais. Como uma vida destinada a cumprir seu pa- pel na camada menos favorecida da sociedade rompe com os constrangimentos estruturais e ocupa lugares impensáveis? Que papéis as autoridades e as insti- tuições deveriam exercer no sentido de providenciar os recursos necessários para tais mudanças? Ou, de fato, não há nada a ser feito: só existe reprodução e a responsabilidade está nas mãos dos indivíduos? São esses os questionamentos que aproximam as refe- xões de Rios às de Bourdieu. Aos 15 anos de idade, a violência não era algo estranho na vida de Victor Rios: já havia trafcado maconha e heroína, roubado bicicletas e carros para vender as peças, como forma de obter dinheiro rá- pido, havia passado pelo sistema de justiça juvenil e estava vivendo sob o regime de liberdade condicio- nal por haver cometido crimes considerados graves. Na passagem da adolescência para a vida adulta, Rios teve contato com diversas instituições: esco- la, gangue, trabalho, sistema de justiça. E em cada lugar desempenhou comportamentos distintos. Na escola, era o menino de rua que buscava se tornar correto; na rua, era o homie 1 que procurava andar na linha para não correr o risco de violar a lei e voltar à prisão; e, no trabalho, o jovem empenhado, que