255 CULTURA E FÉ | 145 | Abril - Junho | ano 37 | p. 255-267 MODO DE VIDA E EMANCIPAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE AS DIMENSÕES ÉTICAS DA FILOSOFIA E SEU ENSINO Federico Testa * Muitas flosofas trazem consigo a refexão sobre a possibilidade de seu ensino. Esse ensino estaria colocado em relação a uma atividade, ou a um conjunto de ações. Trata-se, partindo de uma certa perspectiva, da pergunta pela atividade do ensinar enquanto um processo de desenvolvimento de competências mais ou menos específcas ao estudo e à prática da flosofa, competências vinculadas a determinadas formas de uso do pensamento racional, de argumentação, vinculadas ainda a práticas textuais, de escrita, leitura e exegese. Ou seja, o ensino visto enquanto a forma de desenvolver um modo de identifcar problemas, conceitos e dispositivos flosófcos em um texto, a partir de uma forma de relação – metodologicamente controlada – com esse texto. A partir daí, seria possível tratar do ensino enquanto uma forma específca de exercício da linguagem e da comunicação, com vistas à realização, à ativação ou à potencialização da capacidade de análise, isto é, um determinado tipo de uso instrumental da razão na apreensão de formas e argumentos, bem como da avaliação da validade e da cogência dessas estruturas argumentativas em textos flosófcos. A esse conjunto relativamente abrangente de formas de compreender o ensino da flosofa, chamo aqui – de maneira vaga e para fns de exposição – de “analítico- crítico”. Nesse sentido, o ensino da flosofa poderia estar vinculado ao desenvolvimento de determinadas competências de leitura de textos e da análise crítica de argumentos, bem como de uma tomada de consciência de procedimentos metodológicos da flosofa, ou seja, de uma metodologia flosófca entendida enquanto forma de estudo de textos flosófcos e, também, de exercício da flosofa ou do pensamento flosófco. Pode-se ainda articular esse ensino – vinculado ao desenvolvimento de capacidades instrumentais de abordagem do material flosófco – com o conteúdo, isto é, com as ideias e conceitos que compõem essa matéria sobre a qual se realiza o exercício formal 1 de análise. Ou seja, associar o ensino que visa desenvolver * Mestre em Filosofa (PUCRS) e Artes Visuais (UFRGS). Professor de Filosofa da Faculdade IDC (Porto Alegre). 1 Uso aqui a expressão “formal” em um sentido mais amplo do que a linguagem da lógica formal do tipo (p -> q); trata-se da referência à “forma de um argumento”, sua “estrutura”, não