A sobrevivência de Eros 1 Adriana Facina 2 Enquanto escrevo estas palavras, ouço as sirenes tocarem insistentemente, solicitando a saída dos moradores do Morro dos Macacos de suas casas devido ao perigo de deslizamentos trazido pela chuva torrencial incessante. Sou vizinha do morro. O som angustia, irrita, entristece. Como consigo escrever, comer, estudar com meu filho, cuidar da casa, do cachorro, ter vida normal ouvindo esse som de medo, morte e dor? Esse som que se repete a cada temporal e que anuncia sofrimentos coletivos, sofridos sempre nos mesmos endereços: favelas, periferias, bairros populares. Tragédias evitáveis e banais, repetidas em looping desde há muito. Em 1915, Lima Barreto escreveu As enchentes, onde afirmava: “As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam ao nosso Rio de Janeiro inundações desastrosas.” Em sua crônica, o escritor criticava o prefeito Pereira Passos, que conduziu amplas reformas na cidade, por ter se preocupado apenas com o seu embelezamento e não com a solução do problema recorrente das enchentes. Ouço o barulho de chuva e sirene com a cabeça em outros sons. Mais de 80 tiros de fuzis disparados contra o carro de uma família no último domingo silenciaram um músico. Imagino a percussão infernal, 80 e tantos estampidos secos em quantos segundos ou minutos? Em momentos de tiroteios é comum haver silêncio, nem cachorro late. Os gritos vêm depois. A mulher saiu do carro com a criança. Gritou em desespero. Pessoas vieram ajudar. E os tiros continuaram. Surdos. Assim como as enchentes, são comuns. Sob o manto confortável e protetor da “violenta emoção”, não foi o primeiro e nem será o último milionésimo caso de gente preta morta por agentes do Estado. 80 tiros e sirenes me lembram uma voz que falta. Interrompida, ela ressoa: “quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” A arma que matou Marielle Franco tinha um silenciador. Morte sem som encomendada para calar. 1 Este título dialoga com o livro de Byung-Chul Han, A agonia do Eros (Petrópolis, Vozes, 2017). O texto foi apresentado em São Paulo, 11 de abril de 2019, no Congresso de Sonologia, em mesa-redonda intitulada “Violência, militarização e culturas sonoras”. 2 Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/Museu Nacional/UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades/UFF. Pesquisadora do CNPq.