1 CÁLCULOS NOS INTESTINOS DA PROSA: A POESIA COMO CORPO ESTRANHO EM PAULO HENRIQUES BRITTO Eduardo Veras (UNICAMP/ FAPESP) Resumo Na obra de Paulo Henriques Britto, a poesia persiste como uma força que se “enquist[a] nos intestinos / mais íntimos da mais agreste prosa”, como um corpo estranho que não pode ser domado pela razão, como algo que interrompe o fluxo do “rio de sentidos retilíneos”. “Cálculos” que invadem as entranhas da prosa, a poesia, pensada como discurso do eu, como linguagem difusa do corpo e do desejo, persiste como força indomável, como energia selvagem que desafia o controle racional da linguagem. Por isso, Britto não hesita em apresentar o eu como uma espécie descrita pela “História natural”, isto é, como uma entidade biológica, um exemplar do reino animal. Essa representação do eu como corporalidade também se repete quando se trata de definir a própria poesia. Este trabalho pretende analisar as diversas imagens que apontam para a ideia da poesia como corpo estranho que se infiltra e persiste no seio de uma poética declaradamente racionalista. Tentarei mostrar que a poesia de Paulo Henriques Britto, ao incorporar o fracasso do projeto de purificação da linguagem que está na base da tradição antilírica, acaba por afirmar o valor da poesia lírica em sua diferença, isto é, naquilo que ela tem de irredutível aos outros discursos. Palavras chave: Poesia brasileira contemporânea. Antilirismo. Lirismo crítico. Corporalidade. A trajetória poética de Paulo Henriques Britto não coincide com a eleição precoce da poesia como discurso privilegiado, tampouco com a adesão a uma visão heroica, engajada ou profética da figura do poeta. Britto experimentou, desde o início de sua vida literária, uma predileção pela prosa, que não se separava de uma certa antipatia pelo discurso “afetado” da poesia, com a qual só foi se reconciliar tardiamente, aos vinte e cinco anos de idade. Britto, que “nunca quis ser poeta”, via na poesia “algo de enviesado, uma afetação um tanto irritante”. Incomodava-o, sobretudo, “a pretensão da poesia de dizer o indizível, de expressar coisas recônditas, espirituais”. Apesar disso,