Cláudia Castelo Capítulo 1 «O branco do mato de Lisboa»: a colonização agrícola dirigida e os seus fantasmas No pós-II Guerra Mundial e sobretudo ao longo dos anos 60, Mo- çambique conheceu um desenvolvimento económico sem precedentes. Paralelamente ao forte investimento em grandes obras públicas e na mo- dernização da colónia, é finalmente concretizado um projecto antigo de colonização agrícola de feição ruralista, tradicionalista e conservadora. O presente capítulo tem como objecto de estudo o projecto de colo- nização agrícola dirigida levado a cabo pelo Estado Novo português, a partir de meados da década de 1950, no vale do Limpopo, no Sul de Moçambique. Interessa-nos perceber que modelo de colonização se quis instaurar, quem eram os colonos oriundos do continente e ilhas trans- portados para aquele colonato, o que representavam do ponto de vista do Estado colonial, que expectativas foram criadas em torno da sua pre- sença no território, como eram vistos pela comunidade de colonos e pelas populações autóctones. Brancos nascidos na metrópole, cidadãos portugueses, estavam sujei- tos ao direito público e privado da república portuguesa. Em Moçambi- que, a sua condição de cidadãos metropolitanos devia garantir-lhes au- tomaticamente lugar privilegiado no seio da sociedade colonial. Em termos políticos, sociais, culturais e simbólicos, faziam parte do grupo dos civilizados, cuja superioridade relativamente aos indígenas não era sequer questionada. Porém, uma análise mais atenta não deixa de evidenciar que os colo- nos mobilizados para os colonatos oficiais ocupavam um lugar sui generis no seio dos chamados colonizadores. Apesar de toda a retórica, propa- ganda e idealização do colono rural, este foi sempre minoritário no con- 27 01 Outros da Colonização Cap. 1_Layout 1 10/4/12 9:46 AM Page 27