110 “A PALAVRA CANTADA NÃO É A PALAVRA FALADA”: A CANÇÃO POPULAR NO ENSINO DE HISTÓRIA Rainer Gonçalves Sousa 1 O processo de compreensão das experiências passadas se apresenta das mais variadas formas na vida do homem. Dentro e fora dos limites da educação formal, são diversos os elementos que esbarram cotidianamente na vida dos indivíduos, sendo responsáveis pela criação de narrativas sobre a sua própria vida e a vida do meio no qual ele se insere. Entre tantos vestígios, há uma grande dificuldade em relatar quais dessas vozes do passado têm maior importância e quais delas ressoam com maior frequência na identidade dos sujeitos e dos povos. Apesar de não haver delimitação exata, não se pode negar que – no contexto brasileiro – a música tem um grande protagonismo nesses encontros dos homens com o seu passado. Nos mais distintos períodos da história do país, a construção sonora produzida pela música foi capaz de revelar determinados ordenamentos sociais, explicitar crenças, criar uma imagem sobre certos lugares e colocar em debate os problemas cotidianos. No âmbito da história produzida academicamente, essa importância da música se desenvolveu de modo bastante peculiar, com visível avanço no final do século XX. De lá para cá, o registro de dissertações e teses nos permite dizer que, mesmo que ainda haja muito material a ser pesquisado, já não faz muito sentido afirmar que esse campo de pesquisa ainda esteja dando seus primeiros passos. De fato, à medida em que os historiadores se aproximam da música como fonte histórica, maiores sãos seus desafios e maior é a necessidade de se aproximar das outras áreas do conhecimento que também lidam cotidianamente com essa expressão artística específica. Cabe aqui salientar que o enlace entre a História e a música também se desenvolveu em outro âmbito bastante importante: o do ensino de História. Nesse sentido, já é possível encontrar propostas prontas para trazer a música para as aulas de história, bem como relatos de sua aplicação bem-sucedida. Logo, assim como no meio acadêmico, essa prática passa a ser cada vez mais comum e, consequentemente, oportuniza outros modos de se pensar e debater sobre as experiências dos homens que viveram no passado. No entanto, é importante salientar que – mesmo havendo um certo paralelismo nos desenvolvimentos de “História e Música” e de “Ensino de História e Música” – esse último campo vive uma recente revolução um tanto quanto mais dinâmica e desafiadora que a do primeiro. Isso porque, ao contrário da história acadêmica, o ensino de história esteve por muito tempo excluído do campo histórico, entendido apenas como uma questão de ordem didática que só poderia e/ou deveria ser tratado pela própria Pedagogia. 1 Instituto Federal de Goiás - Campus Goiânia.